O Papa, os filhos e os animais

O nosso conceito de humanidade tem vindo a esquecer o ideal do “bem comum”
0
321

Parecem ter sido suficientemente polémicas as declarações do Papa Francisco na passada quarta-feira, 5, durante a audiência geral, em que o líder da Igreja Católica se expressou, revelando a sua preocupação com as taxas de natalidade globais, e ao dizer que os casais que escolhem ter animais de estimação em vez de crianças estão a agir de forma egoísta, e que renunciar à maternidade e à paternidade está a diminuir a nossa humanidade.

A meditação daquela audiência, ainda em tempo de Natal, versou sobre a paternidade e sobre a forma como S. José demonstrou “uma das mais altas formas de amor” ao educá-lo. Francisco falou ainda de temas como o da adoção e das crianças órfãs. No entanto, o que sobressaiu e veio a alimentar as redes sociais e o debate que nelas se gerou (nem sempre debate), foi a parte do discurso em que Francisco chamou à atenção para o facto de muitos casais decidirem ter animais de estimação em vez de crianças.

“Vemos que as pessoas não querem ter filhos, ou têm apenas um e não mais. E muitos, muitos casais não têm filhos porque não querem, ou têm apenas um – mas têm dois cães, dois gatos”, começou por dizer.

E isto, parece ter ofendido muitos dos defensores dos direitos dos animais. Na verdade, as palavras assertivas do Papa, fazem-nos despertar para uma realidade que sentimos bem na pele, sobretudo a nós, que constantemente ouvimos os nossos governantes a alertar e defender a urgente necessidade de dissipar as assimetrias com o Litoral, mas de quem vemos poucas medidas a acontecer.

Esta é uma verdade, que não coloca em causa a opção de quem a realiza. De modo algum a Igreja se colocaria contra os direitos dos animais, ou ao são convívio entre a humanidade e o mundo animal. Aliás, Francisco tem dado grandes provas disso mesmo: escolheu como nome pontifical o mesmo daquele que é patrono dos animais, tem alertado o mundo para a necessidade de se cuidar de si mesmo e deixou-nos um precioso legado na Encíclica “Laudato si”, onde revela as suas preocupações para com a necessária e urgente “ecologia integral”, que faça prosperar a nossa “casa comum”, como lhe chama.

Aquilo que está por detrás das afirmações de Francisco é o nosso conceito de humanidade, que tem vindo a esquecer o ideal do “bem comum”, que promova os direitos e a igualdade a todas nações e regiões do mundo.

A verdade de Francisco leva-nos a questionar a nossa capacidade de sobrevivência, num tempo duro e difícil em que vivemos, em que não são dadas oportunidades aos jovens casais para poderem oferecer uma vida de qualidade às gerações que deveriam procriar.

A baixa das taxas de natalidade e a desertificação que assistimos por aqui, deixam-nos perceber que os apoios e as condições de vida que se nos proporcionam, diante de um modelo cultural que procura dar bem-estar, em todas as suas dimensões, às gerações mais jovens não se adequa com esse desejo da maternidade e paternidade que deveria ser sonho de cada família.

Mas além disso, as declarações do Papa vêm também no sentido de fazer entender, segundo as suas próprias palavras que a “negação da paternidade ou da maternidade diminui-nos, tira-nos a nossa humanidade (…) e a nossa pátria sofre, uma vez que não tem filhos”, concluiu.

E aqui reside uma das maiores lutas desta geração milenar, que no desejo de se renovar, acaba por ceder a uma ideologia que vai crendo que “não vale a pena trazer vida ao mundo”.

O que está em causa não são os animais de estimação, é sim o nosso modelo sociocultural e económico, que não persevera pela certeza de que a vida é um ato de renovação de Deus, a continuar a criação que Ele ama!

Comments are closed.