O Parlamento, o teatro e a pobreza

Abrem-se novamente as cortinas para que regresse à Covilhã um pouco mais de saber e fruição
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Quase que se podiam conjugar as três realidades que esta semana merecem a nossa reflexão, mas sob pena de interpretações falaciosas, separemos os temas desta escrita, para que se interprete um texto de editorial como convém.

Foquemo-nos no que marca a vida da política nacional, e na dissolução do Parlamento, anunciada na passada quinta-feira por Marcelo Rebelo de Sousa, que entre linhas ou declaradamente, nos deixou perceber que não era seu o mea-culpa, mas sim da falta de uma razoabilidade dos parlamentares que não olharam ao interesse máximo do País, mas sim à exequibilidade das suas intenções e preposições.

Logo se me lançou a questão de se não tem sido assim desde há muito? Sinal claro dessa forma democrática de agir, foi o que uma Assembleia da República, com os dias contados, realizou em mais um dos seus plenários da semana passada. Vetada a lei da eutanásia, porque era necessária uma maior reflexão e esclarecimento aos portugueses, no meio do turbilhão democrático que se vive, marcado pelas contendas e discussões partidárias, eis que o assunto volta à votação, sub-repticiamente, sem que quase nos apercebamos, para fazer vingar uma vontade ideológica e defendida pelos que agora já não servem para a Nação.

Não lhe chamamos de farsa, nem de tragédia, mas que muito de teatral tem tido o desempenho do nosso agir político, ninguém o duvida. Nós, por cá, assistimos por estes dias à reabertura do nosso icónico Teatro-Cine. Depois de um tempo de decadência visível e exteriorizada, seja nas paredes seja na ausência de uma cultura viva, eis que se abrem novamente as cortinas para que regresse à Covilhã um pouco mais de saber e fruição, que enriquecem os espíritos e abrem as mentalidades mais “interiorizadas”.

A Covilhã merece esta sala! Mas mais que isso, a Covilhã merece aceder à leitura, ao teatro, à música, ao bailado e a tantas outras expressões artísticas que não sejam apenas as suas, que muito valor têm mas que não chegam à elevação do que nós mesmo somos.

Uma cidade como a nossa, desenvolvida sob a luz do intelecto que a Universidade lhe oferece como característica maior, precisa de uma aposta concreta e assertiva para que a cultura não nos prive de nos fazer sonhar ou desejar voar mais alto, na fruição de um espectáculo que nos encha a alma.

E se falamos desta necessidade da cultura, como o pão que nos alimenta o espírito, não poderemos deixar de pensar na proposta do Papa Francisco para vivermos neste domingo.

O papa das periferias, que tanto gosto e alegria manifesta quando se associa aos indigentes, desprotegidos, refugiados e sem- abrigo, ordena à Igreja, e com isso acorda o mundo, para que nunca esqueça a realidade da pobreza, tantas vezes camuflada e escondida nos meios familiares, nos nossos ambientes e meios sociais.

Na mensagem escrita para este dia, o Papa parte da passagem bíblica de Marcos (14, 17), em que Jesus diz: “Pobres sempre os tereis convosco”, depois de ter recebido de uma mulher anónima os perfumes que derrama sobre Ele. O gesto foi motivo de escândalo para alguns, nomeadamente Judas Iscariotes, que guardava a bolsa supostamente para ajudar os pobres. A realidade apontada por Francisco refecte-se no hoje que vivemos: tantas vezes disfarçamos a pobreza e as difíceis condições financeiras das famílias com protagonistas que vão criando autênticos actos de ilusão, para nos distrair do essencial.

Não se ligam os temas propostos por este título, mas dão-nos que pensar…