O património delapidado ou o destino imperfeito

Quantas voltas não terá já dado Nuno Teotónio Pereira no seu coval da eternidade!
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António Pinto Pires

Em 1976, em Nairobi, Quénia, a Unesco deu a conhecer uma “Recomendação sobre a Salvaguarda dos Conjuntos Históricos e da sua Função na Vida Contemporânea”.

Poderíamos citar ainda a primeiríssima Carta de Veneza, datada de 1964, sobre a “Conservação e o Restauro dos Monumentos e Sítios”.

E muitos outros documentos poderiam ser elencados; cingindo-me a Nairobi, a Unesco já então advertia os Estado Membros, Portugal é um deles, para a adoção de uma política de salvaguarda integrada, com vista à preservação dos conjuntos históricos, para os quais estabelece medidas a adotar.

Mais se sugere da necessidade para a criação de sistemas de proteção específicos para os conjuntos históricos legais referentes ao ordenamento do território, ao urbanismo e à habitação, devendo para o efeito proceder à concertação de disposições legais para a salvaguarda do património arquitectónico          .

Num curto espaço de tempo, e numa das zonas nobres de memória da arqueologia industrial da Covilhã, de forma acidental e deliberada, dois ícones de inquestionável referência, foram alvos da ignomínia e de todos adjetivos que poderiam ser acrescentados no contexto de delapidação, abusiva e deliberada.

A saber: a chaminé da antiga tinturaria Alçada, alvo de um “acidente” resultante da falta de atenção, que a danificou seriamente colocando em causa a sua integridade e bem recentemente a demolição da antiquíssima tinturaria e pisão de Simão Pereira da Silva, cujas origens remontam ao século XVI.

Esta unidade fabril, que segundo as informações recolhidas do programa “Translana”, era o último edifício completo, com tinturaria e pisão, já existente no século XVI, da qual foi proprietário Simão Pereira da Silva, 1770/1810.

A mesma unidade serviu ainda de modelo a outros pisões existentes na ribeira da Goldra, vulgo conhecido também como o “Tinte Velho”.

Como é do conhecimento público, Elisa Pinheiro, então diretora do Museu dos Lanifícios e Deolinda Folgado, em representação do IPPAR, Instituto Português do Património Arquitectónico, nos idos de 2000/1, procederam à elaboração da “Carta do Património Industrial da Covilhã”, transformado em documento oficial por parte do IPPAR, para que fosse entregue à autarquia local, 2002/3, e ser aprovado pelo mesmo órgão autárquico, de modo a ganhar força de Lei. Foi a primeira carta patrimonial elaborada no País. Segundo pude apurar, foi a mesma introduzida numa qualquer gaveta e votada ao esquecimento.

Um documento que teve enorme importância na elaboração do Plano Diretor, mas cuja utilidade por ali se finou, sem quaisquer justificações públicas, como recomenda a ética processual. Também suscitou alguns embaraços no processo de classificação em curso, das tais manobras desconhecidas da opinião pública!

Perante tal atrocidade, mais uma, e depois do carpir por entre os que por tanto pugnaram ingloriamente, já aqui citados, e a propósito, releio “Património, Herança e Memória”, de Guilherme de Oliveira Martins, que refere: “Impõe-se o reconhecimento mútuo do Património inerente às diversas tradições culturais, que coexistem no continente, e uma responsabilidade moral partilhada na transmissão do Património às futuras gerações”.

Ousaria acrescentar, e para concluir, quantas voltas não terá já dado Nuno Teotónio Pereira no seu coval da eternidade! No dizer de Antero, “O mito eterno da nossa decadência”, ou de Eduardo Lourenço, “O tempo de um povo é trans-histórico na própria medida que é historicidade”.

Seria conveniente que se lesse a “Convenção-Quadro do Conselho da Europa relativa ao valor do Património cultural para a sociedade, aprovado pela Assembleia da República em setembro de 2008.

Tenho escrito

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