O primeiro lugar

A igualdade de oportunidades para se estar num ranking é a primeira das injustiças
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O final de qualquer ciclo, qualquer prova ou competição, abre-nos sempre para a tendência de procurar descobrir quem está ou ficou em primeiro lugar. Seja nas competições desportivas, seja nas provas ou exames, seja em qualquer concurso ou desafio, o pódio, o primeiro lugar, é sempre o foco da questão.

Logicamente que é essa a nossa orientação e obviamente que ninguém busca o último lugar. No entanto, a competitividade e a exacerbada busca desse troféu tem aberto muitas portas para a desigualdade, para a injustiça e para o fosso que nos mostram os acessos e a igualdade ao tal prémio do número um.

Não falamos das provas desportivas e das queixas futebolísticas contra as viciações dos sistemas, e que marcaram o ritmo das semanas que passaram, mas sim das notícias que publicitam o ranking das escolas e colocam em primeiro lugar os centros de aprendizagem mais eficazes, vistos sob o olhar radiográfico dos resultados das avaliações.

A primeira observação sobre este assunto leva-me a “duvidar” de tantos estudos e tantos resultados que aparecem, por meio de instituições privadas que procuram saber onde se aprende melhor. Há resultados para todos os gostos, porque há interpretações múltiplas e para muitos deleites, conforme a alínea ou o parâmetro a que se dá enfoque.

Por si só, parece-me que estabelecer “distinções” entre os lugares onde se aprende melhor e pior é suficientemente injusto, por diversas razões. Entre elas evoco apenas a do contexto e ambiente sociocultural de cada estabelecimento de ensino, para não evocar as discrepâncias de acesso a meios e serviços a que o Interior não chega, mas que o Litoral tem a triplicar.

Parece-me que um aluno de 12º ano terá mais facilidade em compreender toda a estrutura literária da obra “Memorial do Convento”, de José Saramago, que estuda na disciplina de Português, se estiver perto de uma realidade próxima, onde encontre paradigma ao menos de comparação, ou possa chegar facilmente até Mafra para ver com os próprios olhos o objecto que fez nascer a ficção deste romance. Já um aluno do Interior, do Nordeste Transmontano ou do Alentejo profundo terá mais dificuldade em perceber toda a dimensão humanista e artística que o autor transmite nessa obra.

E este é apenas um exemplo, pobre, mas que mostra que a igualdade de oportunidades para se estar num ranking é a primeira das injustiças. Isto porque não me parece, de todo, razoável que uma escola se possa medir na sua qualidade apenas porque os alunos com melhor acesso ao Ensino Superior, ou com um nível de médias acima de, possa ser melhor que outra que acompanha, cuida e está atenta às verdadeiras necessidades dos meios socioculturais em que se inserem.

Para além disso, há toda uma oferta educativa, cada vez mais alternativa e que tem surgido como estratégia para baixar os índices de abandono escolar, que provavelmente não é contabilizada nos parâmetros que dão números e posição às escolas avaliadas.

O primeiro lugar está na objectividade de querer oferecer às crianças e jovens as bases sólidas para virem a assumir um bom desempenho, seja na progressão dos estudos, seja na afirmação enquanto cidadãos responsáveis.

“Quem quiser ser o primeiro tem de ser o último” – adágio promulgado por Cristo parece perder lugar nesta forma competitiva de pensar a realidade, que já está nos bancos da creche e pode mesmo virar-se contra nós, por tanto desejarmos o primeiro lugar.