O silêncio dos inocentes

O “Tinte Velho” nunca devia ter sido demolido
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António Pinto Pires

Este filme de Jonathan Demme, no sentido figurado do tema, pode aplicar-se às causas indefesas, muitas vezes expostas ao canibalismo voraz do camartelo, do lucro ou da ignorância deliberada.

Falando da iliteracia, este padecimento é ainda muito evidente num tempo presente, persistente em ignorar a memória de um povo, tecida ao longo de séculos, e se foi moldando e pautando por ousadias de uma vontade férrea moldada nas marcas do património, um pouco por toda a cidade. Ao caso a Covilhã.

Mas estas questões da preservação têm sempre muito que se lhe diga, por muitas e variegadas razões. Ou seja, a humanidade, um todo “mutatis mutandi”, desde tempos memoriais, se apercebeu da necessidade da elaboração de normas de âmbito internacional sobre o património arquitectónico e arqueológico, um fenómeno em crescendo sobretudo nos finais do século XIX e XX.

Portugal, não podendo passar ao lado desse movimento emergente, foi procedendo ao desenvolvimento de estratégias de modo a proteger o seu património cultural, e todo o seu quadro normativo se tem apoiado, nas últimas décadas, nos consensos internacionais promovidos sobretudo pela UNESCO, pelo Conselho da Europa e pelo ICOMOS.

Sem pretender enumerar todo o vasto conjunto de convenções internacionais, ratificadas pelo nosso País, relembro a Convenção de Haia, (UNESCO, 1954), mais recentemente a convenção quadro do Conselho da Europa relativa ao valor do património cultural para a sociedade (Conselho de Europa, 2005), como exemplos.

Consequentemente foram surgindo recomendações definindo critérios nas diversas fases de protecção do património, nomeadamente a identificação e inventariação, o estudo científico, a protecção jurídica, a conservação física, a divulgação, a valorização e a gestão.

Ainda a propósito do triste fim do “Tinte Velho ou Tinturaria do Ranito”, relembrar que em Junho de 2004 foi constituído o Grupo de Inventário do Património Industrial da Covilhã. Destaca-se o território denominado “Fonte do Lameiro” e toda a paisagem envolvente à zona envolvente da rotunda do Rato, onde se salienta a figura de Nuno Teotónio Pereira na elaboração do “Plano de Pormenor”, instrumento fundamental para a elaboração do programa “Polis”.

Poderá deduzir-se que as coisas não correram de feição a partir deste período, não só pela forma como decorreu o “Polis da Goldra”, desvirtuado no entender de especialistas, assim como, e também, se possa entender como todo o processo de classificação se foi arrastando até 2019, quando Deolinda Folgado, do IPPAR, propõe à Câmara da Covilhã que pondere na classificação deste zona como de CIM, Conjunto de Interesse Municipal, merecedor da concordância da Direcção-Geral do Património Cultural,  propondo-o como tal, ao município da Covilhã, em Maio de 2020.

No dizer dos especialistas, e mediante toda esta tramitação, o imóvel reunia todas as condições para ser considerado classificado como de interesse municipal, CIM.

Logo, o “Tinte Velho” nunca devia ter sido demolido! Ou como alguém me confidenciava, “não querer pensar que o acidente com a chaminé da tinturaria Alçada, tenha sido mais que isso!!” Dias depois, o “Tinte”, foi demolido.

Coincidências? Cá estaremos para ver…

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