Onde se vive já só e isolado para além da pandemia

Como estão a viver o confinamento as populações de algumas aldeias "encravadas" no meio da serra? Foi isso que o NC foi tentar descobrir ao Sobral de São Miguel, Casegas e Ourondo
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O amarelo das mimosas a florirem dão alguma cor ao negro da paisagem, consequência de um último Verão em que os fogos florestais deixaram um rasto de destruição na floresta. A este preto, junta-se um dia cinzento, a ameaçar chuva, numa aldeia em que, à chegada, não se ouve viva alma. No Sobral de São Miguel, ou “Centro do Universo” para muitos locais, consegue-se caminhar nas ruas quase de lés a lés, sem se ouvir ninguém. Ou ver gente. Só mesmo o som de um cão a ladrar rompe o silêncio. Pessoas, apenas uma ou outra, à porta de casa. Devido ao período de confinamento que se vive em Portugal.

Lúcia Saraiva, 81 anos, acaba de sair de casa apenas para ir dar um pequeno passeio, a pé, pela estrada nacional que liga o Sobral a Casegas. Interrompida pelo NC, primeiro encolhe-se na abordagem, mas depois lá solta o que lhe vai na alma quando lhe perguntamos como está a viver estes dias de estado de emergência e confinamento geral. “A vida aqui tornou-se ainda mais triste” afiança, recordando que a pequena aldeia já está suficientemente isolada para que tenham que as suas gentes se isolar ainda mais. “A vida mudou radicalmente. Agora não se pode sair de casa, o que dificulta ainda mais a vida numa aldeia que só tem um pequeno mini-mercado, onde fazemos as nossas compras” frisa a idosa, com uma embalagem vazia de farinha nas mãos, que vai deitar ao lixo antes de uma pequena caminhada.

“Não há nada”

Apesar de, nesta Aldeia do Xisto, não se ter apercebido de nenhum caso positivo de covid-19, nem sequer no lar, “o que foi muito bom”, Lúcia sabe que as pessoas têm medo de vir à rua. “Têm muito medo. Mas custa muito estar fechada em casa, não poder sair daqui da aldeia, por exemplo, para ir à Covilhã às compras. Eu ia nos transportes públicos e desenrascava-me. Sinto muito essa falta” frisa. A sobralense lamenta ainda o esquecimento a que estas aldeias mais longínquas estão votadas. “Ninguém se lembra de nós. Não há consultas, não há análises, que para pessoas com uma certa idade são importantes. Não há nada” remata.

(Reportagem completa na edição papel)

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