Os amordaçados somos nós

Reconstruir a desigualdade passa também por colocar os olhos neste Interior tão “confinado” à sua sorte
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Há pouco mais de uma semana, Marcelo Rebelo de Sousa iniciou um novo mandato como Presidente da Républica. Nada parece ser novo, mas sim um ritmo de continuidade se manifesta, quando o próprio refere que é “o mesmo de há cinco anos”.

Porém, o Portugal que vem agora governar é que já não é o mesmo e nem o acolhimento da sua forma de estar e viver pode ser feita pelos “afectos” que tanto o caracterizam, mas que agora são desaconselhados pela força de uma pandemia que necessariamente mudou o Mundo e, obviamente, Portugal.

É certo que contradizendo o seu antecessor, que poucos dias antes tinha afirmado que vivemos numa democracia amordaçada, o Presidente de Portugal afirmou que “vivemos em democracia, queremos continuar a viver em democracia e em democracia combater as mais graves pandemias.”

Numa clara exaltação à liberdade lembrou essa capacidade do país se dirigir às urnas para realizar dois actos eleitorais e lembrou que precisamos, porém, de uma melhor democracia, em que “a realidade não seja esvaziada” pela pobreza ou pela corrupção.

Terá muito para fazer então o Presidente da República. Não que tenha de interferir nos outros poderes, porque a separação dos mesmos é dado constitucional, mas porque como “messias da esperança”, Marcelo assume essa missão de fazer reerguer o país que entre o desconfinar e o desconfiar terá muito para andar.

A dura tarefa passa por não deixar que se alonguem os dias da pandemia, evitar que o número de mortes cresça e a sobrecarrega do Serviço Nacional de Saúde.

Tudo isto terá de acontecer com a reconstrução de tantas vidas abaladas e marcadas pela força de um vírus invisível que deixa marcas bem visíveis na economia do Estado e sobretudo das famílias.

Emprego, rendimento, empresas, mas também saúde mental, laços sociais, vivências e sonhos serão o alvo da missão presidencial? Cremos que sim. Mas para além dessas, o próprio Marcelo Rebelo de Sousa foi lembrando a necessidade de “reconstruir a vida das pessoas sem corrigir as desigualdades é reconstruir menos para todos.”

E reconstruir a desigualdade passa também por colocar os olhos neste Interior tão “confinado” à sua sorte. Das promessas do Presidente veio o anúncio de que visitaria os concelhos que ainda não conseguiu visitar durante o primeiro mandato.

Talvez venha observar com olhos de ver o que para cá das montanhas acontece, o bom, o belo e o potencial desta “província” que é mais do que um pedaço de território nacional.

Talvez traga consigo a necessidade de diminuir assimetrias e consiga perceber que o valor das portagens é completamente descabido, que a promoção turística tem de ser mais intensa, que a apresentação dos diversos parques de fixação de indústria têm de oferecer benefícios para criar fidelização, que a frescura agrícola precisa mais do que um regadio, que os estabelecimentos de ensino superior merecem outras condições para a acessibilidade aos mesmos e que há tanto que ainda se não conhece deste Interior.

“Desculpamos o Presidente” por ainda não nos ter visitado: teve incêndios que marcaram dois anos do seu primeiro mandato, teve uma pandemia que o colocou em isolamento e obrigatório exemplo de quem não sai de casa, mas agora espera-se um novo olhar sobre nós.

Ao longo destas semanas o NC tem vindo a visitar as nossas aldeias mais recônditas, onde tudo se tornou ainda mais difícil, para que todos conheçam o que por cá vai. Descobrimos tantas vontades “amordaçadas”, tantas saudades escondidas e tantos sonhos por realizar, para além dos bens essências que demoram tanto a chegar. Mas, mantém-se a esperança…

É de esperanças que nos movemos. Que este segundo mandato realize as nossas…

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