OS INDEPENDENTES

Quando se sugere a existência de um político independente que concorre a um cargo público, imagino sempre que ela se personifica em alguém de bom nível intelectual e ideologicamente livre. Um ser que nos forneça soluções, que represente mudança, que seja agregador, e que tenha carisma. Um líder. Não depender de poderes alheios, ter autonomia, escolher o seu próprio caminho, ter controlo sobre ideias e motivações, foco nos objectivos, e em simultâneo conseguir que o seu público identifique e valorize todas estas características, é algo que não está ao alcance de muitos. Chama-se a isto independência, São poucos os que no escorregadio mundo das relações humanas conseguem esse desiderato, tendo em conta que são necessárias muita coragem e determinação, e sobretudo força nas convicções. Quando tentamos enquadrar essa liberdade de atitudes no viscoso cenário da política, somos forçados de imediato a desistir.

Se conceptualmente possamos admitir independência em algum dirigente político, a prática diz-nos que isso não existe. É verdade. Na política são todos dependentes. Até no pensamento. O mais independente que um político se julga é em momentos como o que vivemos agora, quando o próprio anuncia que neste momento, precisamente agora, deixou de estar ao serviço de um partido. A decisão “vou como independente”, e que habitualmente é fruto de uma superior vontade de chegar ao poder, é quase sempre tomada na sequência de outra, grupal, que lhe indica a porta de saída e que diz; “não te querermos cá, sabes bem que contamos sempre contigo para batalhas futuras, mas para este combate específico não tens o perfil adequado”. Aí o dirigente enceta normalmente um período de reflexão, e tomando consciência do engano do grupo que sempre lhe servira de base e de cómodo, decide mostrar-lhes como estão equivocados, e assume, ainda que temporariamente a sua independência. Por conveniência. Reúne outras vontades, quase sempre oriundas do mesmo espaço em que prestou serviço, e apresenta-se ostentando as insígnias da dedicação… da dependência. Lá está. Para este tipo de políticos, isto é ser-se independente, mesmo que continuem filiados no seu partido de sempre, e por quem obviamente “deram a vida”.

Nos próximos meses, estas iniciativas vão passar-nos à frente da vista, e nós acharemos normal. Sem pestanejar. É talvez cedo para olharmos para o quadro e tentarmos entender os alinhamentos autárquicos, sobretudo porque esse período é precedido de outro que vai, seguramente, determinar as “independências” que se seguem. As listas de candidatos às legislativas, os resultados apurados, e os deputados eleitos, criarão novos arranjos e eventuais frescas relações de proximidade. Ou de afastamento. É, portanto, muito provável que vejamos novas listas de desalinhados, vulgo “independentes”.

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