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Os inícios laneiros da Covilhã

“1677 – A Fábrica D’El-Rei” é o primeiro livro do presidente do conselho de administração do Parkubis, Jorge Patrão. Apresentação aconteceu no sábado, 27, no Anfiteatro das Sessões Solenes da UBI

“Que percentagem de criptojudeus fundaram fábricas na Covilhã?”. É a esta pergunta, colocada há cerca de três anos pelo antigo reitor da Universidade da Beira Interior (UBI), Manuel Santos Silva, que Jorge Patrão responde no seu primeiro livro, “1677 – A Fábrica D’El-Rei”.

“Eu achei curiosa a pergunta e disse ‘professor, eu não sei. Sei que são muitas, mas não sei a percentagem’ e decidi começar a investigar isso”, afirma Jorge Patrão. Agora já com uma resposta concreta, o autor conta que entre 1677, data em que se inicia a obra, até 1900, em “termos de tinturarias, a percentagem é de 100%. Outras atividades laneiras, à volta de 80%”. Jorge Patrão refere ainda que os tintureiros eram “todos criptojudeus, cristãos-novos ou descendentes de cristãos-novos”.

O livro inicia-se em 1677 com a criação da “primeira grande manufatura” na Covilhã, a chamada, na então vila, “a fábrica D’el-Rei”, uma unidade manufatureira pré-industrial localizada na ribeira da Carpinteira, também conhecida como Fábrica Nacional de Sarjas e Baetas.

Jorge Patrão, de toda a investigação que fez, destaca dois momentos: a descoberta de duas cartas aos embaixadores ingleses em Lisboa, uma de 1677 e outra de 1678, em que é apelado ao governo britânico para que “se faça tudo para boicotar as fábricas e que impeça os técnicos ingleses de virem trabalhar para ajudar ao lançamento, principalmente da parte tintureira, mas vinham também técnicos de outras secções”.

O outro momento destacado pelo autor diz respeito a uma carta anónima escrita ao rei, em 1680, onde se denuncia um frade do Mosteiro e Igreja de São Francisco, “que andava nos púlpitos das igrejas a clamar que se matassem e apedrejassem os cristãos-novos”.

Em declarações aos jornalistas, Jorge Patrão considera que ainda há material para um segundo livro a incidir nos acontecimentos antes de 1677. “Antes de 1677 havia oficinas, não havia grandes manufaturas e essas oficinas tinham atores que também podem ser identificados”, refere.

“Se virmos os processos da Inquisição alusivos à Covilhã, estamos a falar de uns 700, eles [inquisidores] diziam sempre a profissão e era sempre ‘paneiro’, ‘fabricante de panos’, ‘tintureiro’, são termos ligados à indústria de lanifícios e essa parte não está ainda suficientemente investigada na Covilhã”, explica.

Foram necessários três anos para que, entre investigação, análise e escrita, a obra ficasse pronta. Segundo o autor, foram lidos e investigados “centenas de dados” dos arquivos nacionais e também ingleses, holandeses, entre outros. “Isso demorou a correlacionar com os factos que nós apresentamos. Tentei articular toda esta mensagem de uma forma que seja legível, porque as consequências aconteciam num plano económico, religioso, social, as pessoas às vezes tinham de emigrar, era preciso ver para onde foram, o que é que passaram a fazer”, diz.

A obra tem prefácio da escritora Isabel Stilwell e posfácio do jornalista do Público, Paulo Curado.

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