Os jovens, esses conscientes

Há tanto de bom na juventude de hoje. Mas, e como é nosso apanágio, facilmente identificamos esta faixa etária com o mau exemplo
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Muito se tem falado da juventude e dos seus actos inconscientes na forma como se tem vivido o desconfinamento e o regresso à normalidade, tão desejada e tão esperada por todos.

Parece que os culpados da nova propagação do covid-19 e dos números que nos assustam diariamente são os jovens, desse “aglomerado de inconscientes” que só desejam viver a vida a seu belo prazer, que só pensam em praias e sol e festas e serões bem passados.

Falamos da juventude numa generalidade tão alargada como se nela não houvesse valores e actos heroicos dos quais nos possamos orgulhar e aos quais até possamos agradecer.

Si, a juventude, essa fase da cronologia humana que nos faz despertar a rebeldia e desafiar os limites, não pode ser “julgada” por desejar viver o que é próprio da sua idade. Ainda há pouco tempo exaltávamos as crianças pelo grande desprendimento que tiveram de realizar aquando do confinamento. Louvámos os médicos e os enfermeiros, os que estiveram na linha da frente e tantos que resistiram e deram excelentes testemunhos de perseverança e resiliência. Não o devemos também aos jovens?

Creio que sim. Creio que o exemplo dos jovens deve ser exaltado e louvado, porque de jovens se faz a nossa humanidade e de grandes testemunhos se enriquece o nosso espírito humano. E é por isso que olho para esses grandes exemplos de dedicação e entrega às grandes causas e os vejo como força motriz em tantos lugares de serviço.

A classe dos enfermeiros é predominantemente jovem, os resistentes que aguentam turnos e turnos seguidos. O novo grupo de médicos dos nossos hospitais são maioritariamente jovens, que se dedicam a uma nova forma de relação com o doente e humanizam os corredores dos hospitais com o medicamento da simpatia. Os bombeiros são maioritariamente jovens que se alistam nesse exército de voluntários, que gastam as suas forças na defesa dos outros. A reinvenção dos negócios tradicionais, a que temos vindo a assistir e dão vida ao comércio local, são protagonizados pelos jovens. Eles estão no voluntariado, na missão, na atenção aos que mais precisam. Estão disponíveis e abertos a cuidar a semear o que eles mesmo desejam construir.

Há tanto de bom na juventude de hoje. Mas, e como é nosso apanágio, facilmente identificamos esta faixa etária com o mau exemplo de alguns que não respeitam as regras, que se acham imunes à pandemia e que enchem os rodapés dos noticiários pelos actos inconsequentes que realizam.

Cada nova geração será desqualificada pela anterior como aquela que é a pior. Quando dizemos “os jovens de hoje” já estamos a discriminar, sem darmos conta e a condenar a ausência de cabeças pensantes.

Mas a juventude actual, nascida pela primeira vez na história com um smartphone nas mãos e a internet na cabeça, é tão radicalmente diferente de todas as anteriores e merece a nossa atenção e acolhimento, porque há nela um novo “chip” com o qual os adultos não nasceram e que se chama “mundo digital”.

É certo que hoje os jovens marcam o momento pelo desejo de estar “na crista desta onda”. E isso faz-se pelo número de likes e seguidores nas redes que ondulam até à praia numa rapidez ímpar e que exige estar constantemente atento às mudanças.

É assim que cresce, diante de nossos olhos, uma geração de pessoas versáteis, que se conseguem adaptar rapidamente a toda inovação e estabelecer novas regras para o jogo da existência, quantas vezes for necessário. Se isto é bom, não o sabemos. Mas de certeza que é marca identificativa dos jovens, esses grandes conscientes de que há muito para mudar amanhã.

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