Para onde vais?

A Igreja sempre teve muito pudor e muitas reservas em se lançar nesta aventura de se ouvir e ouvir o mundo laical
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Desde o final do ano passado, o Papa Francisco tem vindo a convocar a Igreja para o grande Sínodo, que se culminará em 2023, fazendo com que os efeitos do Sínodo se sintam já na vida das pequenas comunidades e das Dioceses, que constituem a Igreja espalhada pelos quatro cantos da terra.

A chamada “Caminhada Sinodal”, que muitos desconhecem e outros não entendem, é simultaneamente um fim e um meio: um fim porque ela pretende que toda a Igreja tenha voz activa na sua forma de estar e viver no meio da sociedade e um meio, para que se venha a redescobrir esta sua identidade, pós- Concílio Vaticano II, mas que ainda está por cumprir.

A palavra “Sínodo”, com larga conotação eclesial ou clerical”, pouco soa aos ouvidos da maioria dos cristãos e tanto mais estranha se faz para com os que se afastaram da proposta da Igreja ou do caminho a que ela convida. Na raiz deste termo que nasce do grego está o sentido de comunhão, ou seja, a dimensão espacial em que todos têm direito a levantar a voz, em apontar críticas, mas sobretudo a contribuir positivamente para o desenvolvimento de determinadas realidades.

A Igreja sempre teve muito pudor e muitas reservas em se lançar nesta aventura de se ouvir e ouvir o mundo laical, porque, ainda hoje, a Igreja é caracterizada por um clericalismo que a ordena e estrutura, não deixando grande espaço de acção para aqueles a quem a “Ordem sacramental” não assentou como graça.

O Papa, desde 2013, tem desafiado este pensamento instituído: convocou já quatro grandes reuniões da Igreja, por perceber que ele só não deve nem pode “governar” a instituição milenar fundada por Cristo. Aliás, em várias entrevistas e intervenções, o pontífice de Roma tem afirmado que o seu programa pastoral é colocar em prática o que as Constituições Gerais, ocorridas antes do Conclave que o elegeu, tinham deixado bem claro como necessidade para a Igreja.

Ainda assim, a mesma hierarquia que tem em mão os destinos da “barca de Pedro”, parece não ter grande vontade de remar pelos mares da mudança a que o mundo assiste todos os dias. Mas também os outros navegadores, os que se encontram nos pequenos rios que vão desaguar a Roma, as Dioceses entenda-se, parecem também não manifestar grande preocupação para com o futuro deste anúncio de esperança que constitui a essência da Igreja.

Sim! A Igreja, estrutura, instituição, realidade milenar, para além de tudo isto é um anúncio. Vive para proclamar a esperança em Deus, vive dessa mesma esperança e luta para que a ninguém seja roubada. É ou deveria ser… Porque o que infelizmente tem vindo a sobressair é tanto mais dela do que a sua raiz ontológica.

No tempo da escuta de si mesma e na redescoberta de tudo o que lhe dá sentido, as notícias que vão fazendo correndo tinta e minutos dos jornais têm-se centrado nos seus temas fracturantes, nas suas realidades materiais e no que mais a poderá envolver num testemunho de incoerência, que lhe prova o descrédito, que a reprime na sua necessidade de renovação.

E é daí que o apelo a um contributo sério, positivo, mesmo que tocando em feridas, justo e recto, seja o que mais de necessário se possa sentir na nossa Igreja. A participação dos que se identificam com a mensagem e os valores cristãos, a disponibilidade para reerguer as colunas caídas que lhe dão sustento e a abertura à novidade são urgentes, para que a caminha sinodal venha a dar frutos.

Quando Pedro fugia de Roma, conta a tradição, com medo do martírio, Jesus ter-lhe-á aparecido às portas da cidade e lhe lançou a questão: “Quo vadis?”. Hoje é à Igreja da Covilhã – Belmonte, da Guarda, de Portugal e do Mundo que se lança esta mesma pergunta: “Para onde vais?”.

O tal Sínodo precisa da nossa resposta para nos fazer entender o verdadeiro caminho, porque já sabemos qual é a direção!

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