Pedreiro de profissão, artesão nas horas vagas

José Paiva, 65 anos, nasceu entre o xisto, rocha que extrai da pedreira em Sobral de São Miguel e com a qual constrói habitações, mas também casas em miniatura e outros objectos
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É um trabalho de minúcia o que José Paiva, 65 anos, vai fazendo no rés-do-chão de uma das suas casas em xisto, na localidade que se afirma o coração das aldeias onde esta rocha domina a paisagem: Sobral de São Miguel. O pedreiro escolhe e encaixa as peças laminadas com a agilidade que os vinte anos de experiência lhe permitem. O sobralense tem uma pedreira de xisto e ardósia, de onde retira a matéria-prima para fazer telhados, revestimentos, pavimentos ou construir casas, mas tem como passatempo fazer miniaturas das habitações típicas da localidade.

Tinha o conhecimento da pedra, o molde, o desperdício de material e começou com a esposa, entretanto falecida, a recriar em pequena escala as construções que lhe eram pedidas em tamanho real, tal como casas representativas da aldeia onde nasceu e onde recebeu o “legado de família que passou de geração em geração”, o negócio do xisto.

Se a pedreira é o seu sustento, como foi do avô, “pioneiro”, e do pai, feito “aprendiz”, o artesanato é um entretenimento para o qual sempre teve inclinação. “É o amor das horas vagas”, frisa José Paiva, enquanto percorre com as mãos algumas das peças, sem se deter em nenhuma.

“Eu recrio as casas que existem por aqui”

Os primeiros trabalhos em miniatura eram “consoante os modelos que havia na aldeia”. Depois, a pedido, alargou o leque. “Eu recrio as casas que existem por aqui, mas também outras que tenho feito, porque às vezes pedem-me para fazer a miniatura de casas”, conta o artesão nos tempos livres, filho do xisto a tempo inteiro.

A rocha metamórfica está-lhe nos genes, como faz questão de vincar na inscrição feita numa ardósia, onde enfatiza a sua paixão pelo xisto, “sempre presente” na sua vida, “com dureza e rigor”. Filho e neto de gente que fez da pedra um modo de vida, estabeleceu-se há duas décadas por conta própria e orgulha-se de ter passado aos filhos essa herança. Os anos “que falta viver, ao xisto vou dedicar”, informa, numa lousa de dimensão generosa encostada à parede, onde partilha essa ligação telúrica.

Este não é o seu negócio, garante. Dedica-se a este passatempo para divulgar a pedreira e o trabalho que faz, para oferecer as peças a clientes ou conhecidos. No Xistrilhos, festa na aldeia que este ano a pandemia impediu que se realizasse, vende.  “As pessoas preferem o que é mais típico, o que é rústico, o que é natural”, observa.

Por dia, tendo vagar, consegue fazer cinco casas em miniatura, mas foi explorando outros caminhos e produzindo outras peças, aproveitando a pedra não utilizada. Faz tabuleiros, bandejas, relógios. Também corta pedras em formato pequeno que leva a imprimir com imagens de Sobral de São Miguel para fazer ímans para o frigorífico, em jeito de recordação da aldeia onde a ribeira do Porsim ocupa um lugar central.

Por vezes limita-se a revestir objectos que tem à mão ou comprados, como são os casos das cascatas de água com luzes e som, a que empresta o xisto.

“Antigamente rebocavam, hoje andam a tirar o reboco”

Assim como nota interesse pelas pequenas peças em que vai pegando, dividas entre uma garagem, a oficina e a zona de exposição, em outra casa de que é proprietário, também se apercebe da crescente valorização do que é tradicional. Até aos anos 60, recorda, as casas eram em xisto. Com a emigração, começaram a rebocá-las, um sinal exterior de que a vida estava a melhorar.

“Agora ressurgiu o interesse das pessoas pelo xisto. Antigamente rebocavam, hoje andam a tirar o reboco. Há uns 15 anos que voltaram a querer pôr a pedra à vista”, sublinha José Paiva, que vê com agrado este recuo ao que é típico. Os proprietários de casas mais antigas querem contribuir para reforçar a ideia de Sobral de São Miguel como “coração do xisto”. “As reconstruções fazem-se em xisto. Fica mais caro, mas fica para toda a vida”, acentua.

Diz quem extrai a pedra e a vende para o país e estrangeiro, além de também fazer obra. É na zona de Arganil, Piódão, Coja, Proença-a-Nova que tem mais trabalho, mas ainda recentemente vendeu dois camiões para França.

A rocha que tão bem conhece, em forma de xisto ou ardósia, vai continuar a ser trabalhada pelas mãos de José Paiva, seja em tamanho real ou miniatura. Ver a elevação do casario paralelo à ribeira com o ventre da localidade à mostra deixa o artesão satisfeito, mas considera ser ainda insuficiente para uma localidade que tem o carimbo Aldeias do Xisto. Um dos maiores aglomerados de construção em xisto que, considera, pode ser muito mais bem explorado e dinamizado, apesar de notar que desde que obteve esse estatuto, Sobral de São Miguel “ganhou nome a turistas”.

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