Popular é ser Santo

A Igreja precisa hoje não apenas anunciar, mas sobretudo testemunhar a Esperança dos tempos novos
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Por estes dias chega o saudosismo do que vivíamos como alienação de um peso desmedido que a vida nos ia pondo aos ombros. As festas dos santos populares eram uma lufada de ar fresco, uma espécie de antecipação de um Verão descomprometido de trabalho e responsabilidades.  E sê-lo-iam novamente, não fosse este “respeito” por uma situação frágil no que à saúde pública diz respeito.

Populares, porque são do povo, são os santos de Junho, do calor e de uma esperança de que em breve se poderia descansar e viver um tempo mais desafogado. Mas santos muitas vezes esquecidos no seu testemunho e naquilo que nos ensinam e por isso são recordados e celebrados.

Os Santos são esses “amigos de Deus”, que tendo vivido muito da luta interior enquanto viveram por cá, foram reconhecidos pelo seu esforço e por isso chamados de “heróis” de uma humanidade que se supera a si mesma.

Isso é que é ser santo e isso é que deveria ser popular. Mas hoje, parece ser mais fácil ser-se popular não pela superação de si mesmo, mas antes pelo som dos aplausos e o estrelato efémero que as redes e os meios de comunicação social parecem conferir a quem, por este ou aquele motivo, se vai destacando, muito contrariamente à humildade que caracteriza a vida dos santos.

Também aqui é preciso renovar a visão das realidades. Hoje ser popular é ser um anunciador de esperança para fazer valer que o que era antigo e até de algum modo “inútil” se transforme em novidade que faça acreditar que o “bem” ainda tem lugar neste mundo de santos e pecadores.

A esperança é, por si só, uma atitude de ousadia. Os conformados e resignados não se alimentam de esperança. Quem a sente, quem faz dela uma atitude de vida, sobretudo neste tempo, é necessariamente ousado, atrevido e aventureiro e por isso ultrapassa a sua humanidade e eleva-se a um grau de santidade que necessariamente se destacará.

A Igreja, precisa hoje, não apenas anunciar, mas sobretudo testemunhar a Esperança dos tempos novos e com isso aproveitar para ela mesma se renovar na presença e na forma de estar. Porque não podendo estar fisicamente tão perto, como era hábito, terá de se reinventar em lugares em que manifeste a sua existência. Já não é suficiente a religião do templo, da lei canónica e das regras morais que apontem caminhos de rectidão que se mostram pesados para quem não os entende.

É hora de estar perto, sem clericalismos e liturgias prolongadas, secas e sem que reguem de esperança os olhos que querem encontrar na Fé a solução para continuar e não desistir da penosa caminhada do incerto.

Esta é a hora oportuna para a Igreja “Santa” se revitalizar e mostrar que aquele “comodismo” de fazer “o que sempre fez” não é suficiente para ajudar cada pessoa a reconhecer no Deus de Jesus Cristo a razão da esperança.

Não há memoria da Igreja ter fechado portas. E depois de as abrir, não mais pode ver os templos cheios, nem os santuários a extravasar de emoção; não mais sair com os andores à rua e celebrar a fé de forma tão tradicionalmente portuguesa. Mas mais complicado que isso, é que o nosso regresso não nos trouxe as famílias jovens, os seus filhos, crianças e adolescentes e o mundo juvenil. Parece-nos estar a constatar algo que já sucedia: os mais novos parecem ter-se afastado de nós, talvez porque lhes íamos dando um vinho que não era novo, que não sabia ao desejado.

E por isso, as nossas esperanças têm de se renovar num novo compromisso de mostrar a todos que o popular é ser-se santo, onde estamos, com quem estamos, nos meios que frequentamos e façamos a diferença, não por sermos populares, mas por sermos santos.