Por quem os sinos dobram

Todos lutamos contra a morte que a pandemia nos traz, como a aprovamos em leis que nem sequer têm direito à opinião dos vivos
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A famosa obra literária de Ernest Hemingway, a quem roubei o título para escrever estas linhas, é, no meu entender um tratado sobre a condição humana. Por lá se encontra um desafiante pensamento que transcrevo: “Quando morre um homem, morremos todos, pois somos parte da humanidade”.

Esta semana, de um modo especial, por tradição cristã, os defuntos são recordados e chorados, de uma forma especial. Especial, não porque os sentimentos se alteram, mas porque o calendário marca estas datas que renovam a saudade e trazem ao peito aquele aperto de quem já não saboreia a presença de alguém que amou.

E de facto, na experiência metafísica que assumimos, perder alguém cujas relações nos são muito próximas e por vezes umbilicais, é perder parte de nós. Vamos morrendo um pouco, na alegria, na ausência dos afectos, na proximidade dos olhares.

E neste tempo, em que vamos experimentando tudo isso, por causa da pandemia, mesmo que não seja a nossa morte, todos vamos morrendo um pouco, porque o fim da vida terrena tem sido um dado esmagador e desolador, todos os dias, para cada telespectador deste filme de terror que quer ter audiências.

Estamos cansados, preocupados e tudo parece respirar “morte”, porque não conseguimos controlar a rede de contágio. E aqui todos estamos unidos, porque “nenhum homem é uma ilha, inteiramente isolado, todo homem é um pedaço de um continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntai: Por quem os sinos dobram; eles dobram por vós”.

Mas, na esperança cristã, estes dias que humanamente nos entristecem, são também um grito de confiança no “depois” que nos é prometido e essa constitui a maior alegria de quem acredita na ressurreição e a deseja.

Por isso, o número de mortes a que assistimos e nos surpreende a cada dia, com os olhos dos crentes, será visto como o encontro com uma nova forma de vida. E ainda que de luto se manche a terra e todos nos façamos solidários porque da mesma humanidade nos caracterizamos, não podemos ficar presos ao medo da morte.

Há sim, um caminho que pode ser percorrido em conjunto: o da fraternidade e preocupação por cada pessoa, por cada homem e mulher que merecem a nossa solidariedade e cuidado. Um caminho de vida e de cuidado, sobretudo para com os mais frágeis e indefesos, um caminho de quem se põe ao lado do que parece não ter motivos para acreditar em algo melhor, nem esperança de que a sua vida seja um bem precioso.

O caminho da vida é assim que se faz. E tudo é tão contraditório neste tempo, porque todos lutamos contra a morte que a pandemia nos traz, como a aprovamos em leis que nem sequer têm direito à opinião dos vivos, pobres mortais.

A vida é o bem mais precioso e inviolável, que se inicia e termina num ciclo natural. É estranho que só se pense assim na hora da aflição, na hora em que nos perguntaremos “por quem os sinos dobram”.

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