Pouca terra

É preciso valorizar e projectar o uso desta linha
0
351

A onomatopeia que nos era ensinada na escola, fazia-nos sonhar com um comboio que ao avançar entre as linhas pelas quais deslizava ia gritando “pouca- terra; pouca – terra; uuu – aaaa”.

Era assim que imitávamos o som desse grande veículo que rumava para Sul e nos levava até à capital. Sim, apenas para Sul, porque nestas quatro décadas da minha existência, não me recorda senão uma velha automotora que nos ligava à cidade alta da Guarda e que já há 12 anos estacionou definitivamente as suas velhas rodas de ferro.

Pouca terra… é isso que somos! Apesar de um território tão vasto, que une os distritos de Castelo Branco e da Guarda, com tantas formas de interacção, seja urbana seja rural, com tantos êxodos mais ou menos provocados pela busca de condições básicas de vida, como a empregabilidade e o acesso a bens e serviços essenciais, a ligação entre as cidades e populações que marcam esta geografia não teve, até esta semana, outra ligação se não uma estrada nacional e uma auto-estrada.

E se analisarmos friamente os anos sem outra ligação entre as capitais de distrito vizinhas, quase em jeito de ironia, a linha ferroviária certamente poderia ter sido paga com o valor de tantas portagens suportadas pelos utilizadores das SCUTS, ou então pela paciência passada nas curvas das estradas nacionais.

Hoje, temos um comboio, 12 anos depois. As estações deixaram de ser casas fantasmas e a um ritmo de quem ganha uma rotina, vai deslizando pelas linhas requalificadas e reabilitadas, rasgando as escarpas de granito que caracterizam a região.

Como a 6 de Setembro, quando o Rei D. Carlos e D. Amélia chegavam à Covilhã para a viagem inaugural da ferrovia, hoje somos nós a fazer a experiência de poder chegar à cidade mais alta através deste meio de transporte.

Mas não basta saudar o que, de algum modo, tanto tardou. É preciso valorizar e projectar o uso desta linha para uma maior comunicação entre os municípios do Interior. Porque para além do comboio nos permitir chegar mais a Norte e encontrar novos itinerários, ele traz consigo esta responsabilidade de que a Comunidade que governa as Beiras seja mais concertada nas decisões e na busca de soluções para a valorização deste Interior.

Não será o comboio a trazer as novidades, nem tão pouco a solucionar fenómenos como os do envelhecimento ou desertificação. Mas a inauguração desta linha e a sua reabilitação eléctrica renovam o desafio de um trabalho comum que está por cumprir.

As fronteiras do bairrismo em nada contribuem para que os cidadãos do Interior beneficiem de melhores condições de vida. Acesso a bens de saúde, cultura, serviços centrais, deveriam ser cada vez mais uma preocupação conjunta das “pequenas” cidades deste grande território interior.

O conceito de “aldeia global” poderia ser uma grande oportunidade para o demonstrarmos e ensinarmos ao resto do País, se soubéssemos cortar as fronteiras do orgulho e envidar esforços comuns, sem perdermos identidade, sem deixarmos de sermos quem somos, mas mostrando que a união realmente promove coisas maiores.

Já perdemos esse comboio? Talvez sim, mas esperamos pelo próximo Outono, já não falta muito. E muito menos porque por aqui, coisa que não há, é “pouca-terra”, pelo contrário: há muito por realizar!

Comments are closed.