Quando a fábrica é mais que um emprego

Maioria dos funcionários da Dielmar tem décadas de trabalho na empresa e ainda mantém as esperanças de voltar à fábrica, que consideram a sua “segunda casa”
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Uma ligação sentimental. É assim que os empregados definem sua relação com a empresa Dielmar, em Alcains, insolvente desde Agosto. Muitos dessas pessoas passaram a maior parte das suas vidas atrás das máquinas da fábrica têxtil e agora esperam uma solução favorável para continuarem os seus trabalhos. Na passada terça-feira, 26 de Outubro, a Assembleia de Credores definiu que haverá uma nova reunião na próxima quarta-feira, 10 de Novembro, para se decidir pela venda ou não da empresa.  “Agora que estou em casa, a saudade chega. Saudade dos amigos, do ambiente de trabalho”, explica a costureira Otília Bemposta, 51 anos, há 37 na empresa.

Otília e a amiga Célia Lourenço, 50 anos e também com 37 anos de “casa”, eram inseparáveis na linha de produção. E continuam inseparáveis na luta pela recuperação dos seus empregos. “Tivemos bons e maus momentos dentro da empresa. Mas espero voltar a trabalhar lá”, admite Célia. “Até agora ninguém nos deve nada. Mas em Outubro não temos garantia de mais nada. Queremos voltar”, completa Otília.

As amigas residem em Alcains, têm muita experiência na área de costura, mas ainda não pensam em procurar trabalho noutro lugar. Primeiro, porque há uma relação sentimental com a Dielmar e irão esperar até o último segundo uma definição sobre o futuro da empresa. Segundo, porque consideram que a reentrada no mercado de trabalho será difícil, visto que algumas empresas preferem pessoas mais jovens. “Vamos esperar. Tenho ainda o fundo desemprego, mas não sei o que farei”, diz Célia.

Quando é um casal que está em causa

O drama aumenta quando envolve a família. Estão em maiores dificuldades os casais que trabalhavam dentro da Dielmar. Nesse caso, todo o ordenado do agregado familiar pode ser comprometido.  “A situação é difícil. Agora eu e o meu marido estamos sem emprego nenhum” lamenta Silvina Querido, 60 anos.  É o mesmo caso do funcionário mais antigo da Dielmar, José Alécio Santos, 62 anos de idade e 45 de empresa. “Trabalhava com a minha esposa. Ela está na fábrica há 41 anos. Agora, estamos à espera de uma solução”, explica.

José Alécio Santos passou por praticamente todas as fases difíceis da Dielmar. Lembra que nos anos 80 a empresa quase fechou as portas. Foi salva quando passou a fazer fardas para o Governo. Isso ajudou na recuperação e na superação da crise. Agora, muitos apontam a pandemia como a causadora da insolvência da empresa, embora outros digam que o problema foi outro. “Foi má gestão. A pandemia pode ter ajudado”, refere Santos, que era motorista da empresa e fazia entregas de loja a loja. “Num ano cheguei a completar um total de 40 mil quilómetros de viagem”, relembra.

“A partir de agora tudo é incerto”

É difícil encontrar um funcionário que tenha pouco tempo de casa. A grande maioria passa dos 15 anos de ligação à confecção sediada em Alcains. A costureira Cristina Maria Rolo Patrocínio, 53 anos, tem 18 de Dielmar e mostra-se receosa com o futuro. Conta que paga a renda de 300 euros, tem as contas fixas de água, energia eléctrica, gás e internet, e não sabe o que fazer a partir deste mês. “Recebemos Agosto e Setembro, mas a partir de agora é tudo incerto”, reconhece, na companhia da filha Vânia, de 20 anos, também desempregada.

Moradora em Castelo Branco, Cristina costumava usar o transporte público para se deslocar até a empresa. Nos últimos tempos ia de boleia, com uma amiga. Tudo para economizar os recursos. Agora, não sabe bem o que vai fazer. “Não tenho marido, o meu filho e a minha filha estão desempregados. Não será fácil”, diz. A operária ainda reclama da falta de mobilização dos funcionários da empresa. “Temos mais de 200 empregados, mas não aparecem nem cem quando fazemos algum protesto. A maioria não quer participar”, reclama.

Com 36 anos de empresa, a costureira Rosa Serra, 53 anos, está na mesma situação. Residente em Alcains, pretende procurar outro emprego se a Dielmar não for recuperada. Mas sabe que será uma tarefa difícil. Por sorte, o marido trabalha e está em processo de pré-reforma, o que dá uma certa estabilidade na vida financeira do casal, que tem um filho. “Mas preciso continuar a trabalhar para atingir a reforma. Ainda estou à espera de uma boa decisão, para continuar na Dielmar. É a nossa segunda casa”, finaliza.

Uma empresa que nasceu de uma sociedade entre alfaiates

A Sociedade Industrial de Confecções Dielmar abriu suas portas a 12 de Maio de 1965, em Alcains. O nome veio das iniciais dos quatro alfaiates fundadores: José dos Reis Dias, Hélder Rafael, Mateus Mendes e Ramiro Rafael.  A empresa começou com 30 funcionários e, aos poucos, foi crescendo até se tornar uma das maiores do ramo têxtil em Portugal.

Nos melhores tempos, a Dielmar vendia não apenas para o mercado interno, mas também para outros países. Chegou a exportar perto de 50 por cento de sua produção e ter perto de 500 funcionários. Também partiu para abrir suas próprias lojas, em 2001, a partir de Lisboa, mas que se espalharam por Portugal e também para o estrangeiro. A empresa era conhecida por vender produtos de alta qualidade para homens, a partir do padrão de exigência dos alfaiates fundadores.

A Dielmar enfrentou muitas crises ao longo de sua história, mas sempre sobreviveu a todas elas. A concorrência de tecidos exportados, a pandemia e o enfraquecimento do sector foram factores determinantes para sua insolvência, em 2021.

Nos últimos anos, o Estado injectou na Dielmar cerca de 8 milhões de euros. A empresa de Alcains está parada desde finais de Julho e tem sido o Ministério do Trabalho e Segurança Social, através do Programa Apoio À Retoma, quem tem estado a assegurar o pagamento dos salários aos cerca de 250 trabalhadores.

 

Texto completo na edição papel do NC.

Rosa Serra, 53 anos, pretende procurar outro emprego se a Dielmar não for recuperada

A costureira Cristina Patrocínio, 53 anos, com a filha Vania: receio com o desfecho da empresa

José Alécio Santos, 62 anos e 45 de empresa (à esquerda na foto) trabalhava na empresa com a esposa

Otília Bemposta, 51 anos, 37 de empresa (ao centro na foto), com as amigas Célia Lourenço e Silvina Querido

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