Quase meio século de colaboração

O NC acaba por ser um pouco da “nossa casa”, pela família emergente
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A. Pinto Pires

O bichinho estava cá. Sempre tivera jeito para a escrita e as redações, nunca constituíram problema. Às vezes, solicitava às professoras de Português permissão para me estender para além do mínimo exigido.

Tive a felicidade de conhecer algumas pessoas que me acirraram o gosto pela dita. O professor Carlos Alberto, na Campos Melo, “ad aeternum” recordarei sempre o padre Geraldes, um impulsionador de talentos, com o seu jeito especial de nos fazer sentir o tal frio na barriga quando nos propunha desafios, até então nunca pensados.

Nunca passei de um amador; provavelmente, se ao tempo houvesse cursos de jornalismo, talvez por aí enveredasse. Teria dado um jeito enorme. Mas foram as reportagens, cujos originais guardo religiosamente, a grande escola prática. Com muito amadorismo à mistura, como é óbvio. Mas também de ousadias. A passagem pelo jornal “O Raio”, outra experiência.

Sendo o Notícias da Covilhã, NC, um semanário de índole católica, nunca por isso me senti coagido na expressão das causas que sempre me propus encetar, e continuo. As questões da cidade e da cultura, constituíram e ainda, a paixão maior, sem perder de vista a sua importância a nível regional, algumas vezes com recados para além deste âmbito geográfico.

O NC acaba por ser um pouco da “nossa casa”, pela família emergente e não poderei omitir o padre Fernando Brito, emérito amigo, cujas cumplicidades criadas cimentaram essa inqualificável amizade que remontam muito para além de 1974, através de ousadas orações dos fiéis, desafiantes duma censura que nos afrontava. Mesmo no contexto eucarístico.

A memória da Capela do Rato, do padre Carlos Alberto, Bento Domingos e outros, nos proporcionavam temas desafiantes e questionadores, sobretudo quando o regime dominante procurava celebrar o dia mundial da paz, e se contrapunha provando por A + B, não ser possível, por estarmos em guerra.

O NC deve merecer todo o nosso apoio e carinho porque tem sabido tornear as dificuldades que ciclicamente se têm colocado ao papel da imprensa regional  sem cercear as portas à livre expressão das causas que do mesmo modo cíclico o determinismo da interioridade nos vai lançando no caminho. Torneá-las não constitui tarefa fácil,  e o recente caso do “Tinte Velho”, veio por certo deixar uma marca de inqualificável memória no processo diacrónico urbanístico da Covilhã.

E há sempre essa raiva surda de se ter a sensação que alguns dos combates não surtiram o efeito desejado, porque incómodos ou inoportunos.

Mas quem fez do Jornal do Centro, Comércio do Funchal, República, Seara Nova, Tempo e o Modo, as ousadias do Jornal do Fundão excelentes pautas de leitura, jamais se poderá conformar à quietude, por muito que isso custe a muitas e variegadas gentes, no dizer medievo da escrita.

Essa sensação indelével de escrever com prazer e alegria, a ponto de se tornar um quase dever sem se ser obrigado, fez-me sentir no NC o tal cadinho reconfortante que nos sabe sempre bem abraçar, sem qualquer tipo de bajulação.

Quase meio século de colaboração, iniciada em 1974, é muito tempo. Mas valeu sempre a pena. Um “Bem Hajas” NC, agora com novo timoneiro, o padre Luís Freire, de quem esperamos boa arbitragem.

*Professor

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