Quem vê caras, não vê corações…

A máscara tira-nos montes de informação sobre as pessoas
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Assunção Vaz Patto

Estar em consulta de máscara é mesmo difícil. Não é só isso que é difícil. Afinal, a pressão do tempo é maior para não estar muita gente à espera, e depois precisamos de desinfectar tudo, e de garantir a segurança do doente. E depois ainda temos de tentar resolver os problemas usuais da Internet, que são muito mais frequentes do que deviam. Não é só num consultório, e tenho a noção de que o acesso à rede é mau no Interior. E se queremos mesmo ter cá mais gente em teletrabalho, se queremos distribuir um bocado a população do resto do Pais, um dos sítios onde eu investiria a sério como presidente da câmara seria numa rede realmente boa, a chegar a todas as aldeias e a todos os sítios. Não só para atrair pessoas, mas para garantir o acesso a todos os alunos – a escola pode ser presencial, mas com o primeiro caso de infecção, volta-se ao teletrabalho. E, pelo menos, tentar resolver antecipadamente os problemas que vimos este semestre era boa ideia.

A máscara tira-nos montes de informação sobre as pessoas- e quando se tira fico muitas vezes surpreendida, porque fazia uma imagem mental diferente. É uma adaptação que teremos de fazer também, e se calhar menos complicada- os olhos não mentem tanto como a boca, diz o povo. E quem vê caras não vê corações

A ministra, filha do ministro Vieira da Silva, tem um arzinho simpático, uma voz suave e é bonitinha, embora não se livre de estar envolvida num processo de nepotismo que vai ficar na história. Uma celebridade triste que ainda vai aumentar mais: com a sua vozinha suave, no meio da epidemia que nos assola e em que toda a gente só pensa, fala e vive com o covid- 19, a senhora ministra informou-nos que o Governo, a partir de Julho, vai começar a monitorizar as redes sociais por causa de discursos de ódio.

Eu não conheci a PIDE, mas conheço muita gente que os conheceu, à esquerda e à direita. Também monitorizavam discursos, jornais e livros. E pessoas. O que é um discurso de ódio? Quem define? Se eu disser que o primeiro-ministro tomou decisões erradas neste processo todo da pandemia, vai ser um discurso de ódio? Para alguns fanáticos, provavelmente sim. Se se denunciar um caso de corrupção ou nepotismo – mais um- vai ser um discurso de ódio? Seguramente.

Há afirmações e informações que num país civilizado levariam à demissão da ministra, com arzinho simpático e tudo. Mas isso é num país civilizado. Nós, parece-me que gostámos mais da PIDE do que queremos dizer. De acordo com um amigo do meu pai, vinham à noite em carros pretos.

Como ninguém deu conta da notícia, como ninguém protestou, só falta ficarmos à espera. Dos carros pretos.

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