Reina o “príncipe deste mundo”

Este descrédito nas instituições é um sinal da pandemia da indiferença que reina
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No momento em que estava prestes a despedir-se dos seus amigos e discípulos, Jesus anunciava-lhes que com a sua morte e consequente ressurreição haveria de desaparecer o “príncipe deste mundo”. Falava claramente do mal, da morte e do sofrimento que lhe antecede, sobretudo numa linguagem de domínio espiritual, que apelava a uma fé de que a maldade e a injustiça despareceriam da nossa realidade… Se assim o quiséssemos, claro está!

E parece que não. Embora muito nos custe a admitir, a fé na humanidade parece cada vez mais decadente e o sinal mais claro dá-se quando se quebra a fé nas instituições.

Quando deixamos de considerar necessária, correcta e justa a acção dos órgãos que vão ditando o nosso agir comum e nos apontam caminhos de consolidação social e moral, então estamos diante da decadência de uma sociedade que não é capaz de cumprir a sua missão, que é a de garantir a harmonia e o bem comum de cada um dos seus membros e das gerações vindouras.

A “política” está a passar por este descrédito, a “igreja” também o sente na indiferença de muitos cristãos, as instituições de vida social parecem revelar grande descrédito não apenas nos mais céticos e, para cúmulo de muitos, também a justiça defraudou os milhares de portugueses que desejavam ver um processo marcado por gravosos crimes contra o bem de uma nação, mas que parece que afinal não o eram.

A acusação a José Sócrates e o pronunciamento do juiz Ivo Rosa vieram despoletar aquela velha desconfiança nas tais instituições que nos governam e ditam o caminho a seguir.

E é por isso que o desejo de Jesus parece estar por cumprir: “o príncipe deste mundo” é quem reina, porque não há referências positivas para serem seguidas e sobressai o que marca negativamente o que somos nós.

Não nos cabe a nós analisar as decisões judiciais, mas sim o auscultar e o dar voz a um descontentamento de tantos, traduzido em “memes” de redes sociais, em opiniões incrédulas de comentadores, em petições públicas e estupefacções dos que acompanham a realidade.

O que nos é permitido é constatar que este descrédito nas instituições é um sinal da pandemia da indiferença que reina no âmbito social. E de crescendo em crescendo vamos ver cair a fé em nós próprios, porque facilmente julgamos a parte pelo todo, o erro de um como o erro de todos.

Na verdade, uma floresta cresce silenciosamente. Dela brota o oxigénio que sustenta, a sombra que refresca e a beleza que se contempla. Mas quando uma das suas árvores cai é grande o estrondo, muitas são as árvores circundantes lesadas, tanto da beleza fica marcada pela destruição e a floresta perdeu aquele encanto que o silêncio lhe oferecia.

Assim se passa com as nossas instituições, beliscadas pelos exemplos de interesse pessoal, da dita corrupção e jogos de interesses que lhes retiram a tal credibilidade e sustento, para governarem e ensinarem a ética aos cidadãos.

Precisamos de um tempo novo, de uma semente nova, de alfobre que venha a ser mais do que restolho rasteiro que facilmente se deixa morrer pela força das ervas daninhas que vão crescendo no terreno social.

Há que acreditar naquela promessa, mais do que espiritual, de que “o príncipe deste mundo” há-de vencer, porque quem a pronunciou deixa-nos na nossa liberdade agir a nosso belo prazer, mas não nos deixará sentir o seu sonho frustrado de que reine o tal mal.

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