Renovar: precisa-se!

Um povo que não respeita a sua história e não a valoriza, em breve será um povo sem raízes
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É já esta quinta-feira que se celebra mais um dia santo, linguagem do passado, por que agora é apenas feriado. De memória longínqua e sem data definida, esta quinta-feira não é uma quinta-feira qualquer, mas sim aquele dia que faz paralelismo com a quinta-feira santa, aquela da Última Ceia de Jesus Cristo com os apóstolos, celebrada na semana santa e por isso sem direito a muita euforia e expressões de festa.

É a época medieval quem instituiu a Festa do Corpo de Deus, com grande pompa e circunstância, não apenas na vida eclesial dos católicos, mas de toda a sociedade civil. E a procissão que a caracterizava chegou a ser mais importante que a própria Eucaristia que lhe dá razão de existência.

Nela participavam reis e rainhas, cortes e classes militares, gente do alto e do baixo clero e um sem número de pessoas, que engalanavam as ruas das vilas e cidades para ver as magníficas peças de ourivesaria que hoje são espólio de muitos museus.

O que foi já não é. Em muito temos vindo a perder identidade, porque o Estado Laico, como o deve ser cada nação onde há lugar para a múltipla expressão da fé, já não valoriza os costumes medievais, porque o Rei já não vai à procissão e muito menos porque a expressão católica tenha o sentido que já teve outrora.

Alguns resquícios vão ficando… aliás o “dia santo”, corrijo, o feriado dá um certo jeito para organizar pequenas férias a sul, para retomas da economia e para pararmos e fugirmos da lufa-lufa da qual ainda não nos livrámos, nem com a pandemia.

O “Portugal católico”, como alguém já lhe chamou, de cristão vai tendo muito, mas de identidade que lhe confere essa beleza de uma fé enraizada na pessoa de Jesus Cristo vai perdendo identidade.

Um povo que não respeita a sua história e não a valoriza, em breve será um povo sem raízes e dotado de uma grande fragilidade sociocultural. Sim, porque as bases de uma sociedade, por mais pequena que seja, funda-se sempre na religião e na sua cultura e ambas se unem, para dar expressão ao sentir de um colectivo, que isoladamente é incapaz de o fazer.

Porém, com todo um certo gosto em retirar das nossas ancestrais “festas” e costumes o essencial do que nelas se comemora, esventramos a nossa história e humilhamos o nosso passado, pela vergonha de o termo tido.

Não há procissão do “Corpo de Deus” pelas ruas da cidade ou das aldeias, não há colchas nas varandas, não há tapetes e pétalas a engalanar as ruas, não há homens para carregar o pálio e nem a custódia precisa de ser areada, porque a pandemia não nos permite tais expressões da fé. Mas se as houvesse, seria cada vez mais visível o enfraquecimento destas expressões, porque se tornaram “incompreensíveis” e desprovidas de sentido, para a primeira geração incrédula a que assistimos e que nos dá luta, na forma como nos “recriarmos” a nossa evangelização.

Mas o que mais preocupa, creio, é mesmo esta perda de identidade que nos vai colocando em causa, “quem fomos?” e “o que buscamos ser?”.

Por agora, refugiamo-nos nas “desculpas” que a pandemia nos permite, para não nos sentirmos tão “frágeis”, mas depois, se e quando tudo passar, teremos de ser uma Igreja nova, renovando todas as coisas em nós e deixando que o nosso Deus nos renove, acima de tudo.

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