Roubaram-nos o sorriso?

Que este seja o tempo de treinarmos o sorriso fácil
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As máscaras que nos são recomendadas como etiqueta respiratória para nos proteger do sars- cov – 2 roubaram-nos o sorriso com que facilmente nos entendíamos e comunicávamos. A expressividade dos rostos, que também falam mesmo quando o silêncio é quem se faz ouvir, está agora visível a 50 por cento da face humana. E as pequenas reprovações ou aprovações, os descontentamentos e consolações só são agora audíveis nas palavras que ecoamos. E até essas nos é cada vez mais difícil escutar, porque não lemos os lábios.

Para além disso, diante desta instabilidade social, sanitária, económica e até afectiva, que a pandemia nos infligiu, os motivos para sorrir parecem ser poucos. Os medos e as angústias multiplicam-se e temo que os seus maiores efeitos se demonstrarão não só no momento, mas num depois prolongado, que não será menos penoso do que o tempo presente.

E é daí que, creio, tem de nascer um discurso positivo e alternativo à “demagógica” linguagem pandémica, que nos trouxe um léxico novo, de carácter pessimista, de conotação negativa e que nos empurra a todos para uma desesperança colectiva, mesmo que os avanços na investigação científica pareçam ser notórios.

Mas então surge a questão deste título, diante de todas as contrariedades e os factos a que assistimos e experimentamos: há motivos para nos roubarem o sorriso?

Aparentemente sim. Aparentemente há poucos motivos para sorrir, mas um “volte-face” em toda a forma como olhamos as questões aqui colocadas, pode-nos conduzir a uma nova expressão da nossa alegria, por podermos, ainda, saborear o sol que nasce, a chuva que nos garante subsistência e os gestos heroicos como os que assistimos no fim de semana.

Aquele jovem que saltou as águas do Tejo para salvar a vida de uma pessoa que lhe era totalmente desconhecida; a atitude heroica do polícia que interveio num conflito conjugal e que infelizmente perdeu a vida, por fazer esse bem… Tudo isto são motivos que nos devem fazer acreditar nesse mundo melhor, desejado e que faz sorrir. Porque há motivos para renovar esta nossa esperança.

Não será o consumismo material que nos fará sorrir. As coisas pouco são, quando temos de lutar pela nossa subsistência num tempo tão crítico. Tão pouco será o consumismo afectivo, que parece marcar cada vez mais as relações interpessoais, vigiadas e controladas pelas redes sociais, que nos fará sentir a paz que o beijo ou o abraço nos transmitem.

Mas é este aceitar de uma diferença temporária na forma como nos relacionamos e vivemos que nos pode ajudar a sorrir. As festas natalícias que se avizinham a passos largos, ainda que “diferentes”, segundo se diz, renovam-nos na nossa identidade e na nossa vocação: chamados a ser pessoas alegres e a buscarmos a tal felicidade sem fim.

É nisso que se coloca agora a questão. Aceitar, não de forma resignada, mas tolerante, compreensiva e activa, o momento de dificuldade e saber gerir as emoções, as afectividades, as faltas e necessidades, as angústias e incapacidades, como um espírito de fortaleza e de consciencialização de que não “vai ficar tudo bem”, mas haverá sempre motivos para nos rirmos e sorrirmos.

Que este seja o tempo de treinarmos o sorriso fácil. Depois do uso da máscara, ele estará em vias de extinção. Por isso, é preciso preservá-lo.

 

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