São duas vidas?

Sem fraternidade, a cruz é apenas um objecto de culto e decorativo
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Quando celebramos a ressurreição de Cristo, marcada todos os anos pelo calendário lunar, que nos traz luz nova e um ciclo de renovação, manifesto no ressurgimento das folhas e das flores, dos frutos novos e das colheitas, podemos colocar-nos a pertinente questão que nos assola: teremos nós duas vidas?

Às vezes, no discurso que a própria Igreja usa e transmite como ensinamento, pode soar a isto: depois desta primeira vida, terrena, finita, mortal, espera-nos uma segunda vida em que não há qualquer ideia de finitude e à qual não se coloca qualquer barreira.

Será oportuno, sem fazer deste espaço uma “lição de catequese”, compreender que não é assim.

“Só se vive uma vez”! Este princípio do estoicismo que anuncia o “carpe diem” como ideal da existência, por vezes mal interpretado, é uma verdade. A existência humana é una e irrepetível, mas encontra, no seu percurso, um momento fulcral: o da passagem (Páscoa).

A Páscoa é, pois, o momento aguardado para que se revelem todas as intenções, todas as buscas, todos os desejos e até algumas ilusões que se nos colocam no caminho do agora.

E é isto a tal passagem que se celebra por estes dias, motivada pela memória que vamos fazendo no grande acontecimento da história cristã: a ressurreição de Jesus.

Uma vez mais, por mais um ano, a Páscoa terá uma expressão diferente. Não são apenas as grandes tradições que ficam canceladas, como também os encontros familiares estão condicionados pelas medidas de segurança e de combate à pandemia que permanece.

É desta forma que se celebra o grande acontecimento para os cristãos. É o fazer memória de um acontecimento que o torna vivo e actual, centrado no que ele realmente é e sem o deixarmos desvirtuar, como de resto vamos vendo acontecer pela força de um consumismo cada vez maior.

Na Páscoa, os ovos e os coelhos de chocolate, os doces e lautos banquetes têm lugar sim. O acontecimento merece comemoração e festa: os ovos e os coelhos são símbolo da vida renovada, a mesa farta é sinal da festa e da abundância que se deseja para o ano inteiro.

Os bispos de Portugal, referindo-se a mais uma Páscoa “confinada” ao essencial, escreveram numa breve nota que “nas casas e nas famílias, a mesa é o lugar da partilha do pão e do dom da comunhão”. No entanto, não deixam de lembrar que “a mesa continua a ser o lugar do dom da Páscoa: mesa da Palavra, mesa da Eucaristia e mesa da caridade fraterna. Aqui acontece o milagre da fraternidade cristã”.

Este é o sentido do nosso itinerário, não de uma primeira ou segunda vida, mas sim o de saborearmos com verdade o agora com os olhos postos no depois.

Não é “enfartamo-nos” já. É ir saboreando a beleza e o bom deste momento com os olhos postos no que ainda está para vir. E isso faz-se no apelo concreto e extremamente necessário de estarmos atentos e próximos de quantos são atingidos pela pandemia e sofrem nos lares, nos hospitais e nas instituições.

É disto que se faz a vida, que é só uma, na qual só há uma oportunidade para preparar a passagem. Mesmo que haja sacrifícios e dores, e sabemos que estas são cada vez maiores, sem fraternidade, a cruz é apenas um objecto de culto e decorativo.

A nossa, a dos que celebram a verdadeira Páscoa, não o é: a cruz é a ponte para continuarmos a vida!

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