A Câmara de Seia “não aceita” que as soluções de uns se tornem “problemas de outros”, impondo sacrifícios “aos mesmos de sempre”. É esta, em suma, a principal mensagem da autarquia senense, em comunicado, depois de, há dias, a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, face às cheias que se têm estado a verificar no País, ter anunciado que, até final de março, o Governo emitirá um despacho para lançar o concurso público para a construção da futura barragem de Girabolhos.
A autarquia do município serrano, apesar de manifestar solidariedade com as populações afetadas pelas cheias do rio Mondego, rejeita “liminarmente a forma, politicamente errada e institucionalmente desrespeitosa, como o Governo anunciou o lançamento do concurso para a Barragem de Girabolhos, sem qualquer contacto prévio com os municípios diretamente atingidos pela sua construção.” Citado na nota, o presidente da Câmara, Luciano Ribeiro, diz que esta decisão revela “uma visão centralista que continua a tratar o Interior como território descartável, chamado apenas a pagar o preço das opções tomadas em Lisboa, sem ouvir os seus representantes eleitos e as populações, que há mais de 70 anos vivem sob a ameaça permanente deste projeto.”
A Câmara exige que a solidariedade “imposta ao território seja acompanhada de compromissos claros e vinculativos do Estado, nomeadamente a correção imediata do tarifário da água cobrado em alta, que penaliza severamente os municípios do Interior, e a concretização das acessibilidades rodoviárias (IC6, IC7, IC37, IC12) há décadas prometidas e sistematicamente adiadas.” Para ela “mais do que a barragem”, estes é que são “investimentos fundamentais para o desenvolvimento da região e bem-estar das suas populações.”
“O Governo tem de escolher entre continuar a usar o Interior como reserva de sacrifício ou assumir, de forma consequente, uma política de coesão territorial que respeite quem vive, trabalha e investe nestas regiões” salienta a autarquia senense, que garante não abdicar de defender o seu território e as suas populações, exigindo “diálogo político sério, transparência nas decisões e justiça territorial”. A Câmara adianta já ter solicitado uma audiência urgente à ministra do Ambiente e Energia.
Recorde-se que as declarações de Maria da Graça Carvalho surgiram no final de uma reunião na Agência Portuguesa do Ambiente (APA) com os autarcas de Coimbra, Soure e Montemor-o-Velho. A governante disse que já foram feitos no passado “estudos e trabalhos preparatórios” quanto à barragem, prometeu obras em toda a bacia do Mondego, mas não assegurou que a empreitada da albufeira possa avançar ainda neste mandato legislativo. “Vai ser aberto um concurso e vamos pedir à APA para definir um calendário para as obras. Será uma barragem de retenção de água, que poderá ter multiusos, mas o principal uso será controlar as cheias”, assegurou.
