Só as situações que se justificam passaram a recorrer à Urgência

População passou a recorrer aos serviços apenas em casos mesmo urgentes
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Desde que a covid-19 se tornou o centro das atenções e passou a condicionar a vida de quase toda a gente, a afluência às urgências do Centro Hospitalar registou uma queda acentuada. Segundo Ricardo Costa, o clínico responsável pelo serviço, porque passaram a deslocar-se ao hospital as situações realmente urgentes e os episódios em que tal não se justifica tornaram-se residuais.

“Esta região recorria muito ao hospital para situações de não urgência e essas situações praticamente desapareceram”, informa o médico responsável, que espera no futuro continuar a observar esta mesma mudança de comportamento. “As pessoas perceberam que o hospital é para tratar aquilo que é urgente e necessário tratar e não tem hipótese de ser tratado noutro sítio. Começaram a recorrer aos cuidados primários com maior facilidade”, analisa.

Na primeira semana de confinamento em Portugal, deslocaram-se à Urgência 78 pessoas, em contraste com as 198 que recorreram ao serviço, na mesma semana, no ano passado.

Os utentes com queixas de doenças respiratórias ou suspeita de coronavírus de síndrome respiratória aguda severa 2 são encaminhadas para um espaço próprio, onde funcionava a Urgência Geral, e não se cruzam com os restantes doentes, que aparecem com acidentes vasculares cerebrais, enfartes, problemas relacionados com a diabetes, deficiências cardíacas, lesões traumáticas ou grávidas à procura de atendimento.

Menos acidentes de viação e traumas em crianças

“As pessoas que recorrem às áreas não covid-19 são os nossos doentes crónicos, que precisam de apoio e muitas vezes de medicação, e a situação aguda, que precisa de cuidados urgentes, nomeadamente o trauma que, apesar de existir, reduziu bastante, porque há menos acidentes de viação”, detalha Ricardo Costa. Também “o trauma escolar baixou de forma impressionante”, porque as crianças estão em casa, assim como as infecções respiratórias banais de habitual contágio em contexto escolar.

Como nunca se sabe “o que entra pela porta”, a equipas continuam completas, com a mesma estrutura e preparadas. A diferença, vinca o médico responsável, é que os profissionais de saúde passaram a ter mais tempo para prestar cuidados diferenciados, por não estarem “sobrecarregados com situações não urgentes”.

Para lidar com a pandemia, foi necessário reformular toda a organização da Urgência. O serviço geral passou a ser para atendimento a suspeitos de novo coronavírus, a Obstétrica funciona agora onde era a Urgência Pediátrica, que por sua vez passou a receber os restantes doentes “não covid-19”.

Pré-triagem

A pré-triagem é feita num contentor onde médicos internos perguntam aos utentes os sintomas, lhes dão uma máscara para poderem entrar na sala de espera e encaminham para a área adequada. Há quem chegue referenciado pela linha de Saúde 24.

O que falha? Ricardo Costa lamenta que, por vezes, o próprio doente omita alguma informação relevante, mas, existindo uma segunda triagem, “acabam desviados, de acordo com a necessidade, para a respectiva urgência”.

Helena Martins, 26 anos, e David Gomes, de 25, formados na UBI, voluntariaram-se para fazer esta pré-triagem e consideram a experiência importante para a sua formação. “São novas aprendizagens contactarmos desta forma com coisas que, se calhar, de outra forma, não contactaríamos”, frisa a médica interna.

O trabalho, atrás da janela com grades, com um segurança ao pé, é “perceber se as pessoas vieram encaminhadas pelo centro de saúde, pela linha de Saúde 24 ou se vieram por iniciativa própria”. “Depois tentamos saber quais são os sintomas das pessoas e encaminhamos para a urgência mais indicada, consoante os sintomas que apresentem”, refere.

Ricardo Costa, que nem em casa, junto aos filhos, tira a máscara, salienta estarem criadas as condições para garantir “a qualidade e a segurança” de quem se desloca ao hospital, embora enfatize que “o vírus é muito silencioso nos primeiros dias de doença e qualquer um de nós pode estar, infelizmente, infectado”.

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