Standby

A vida mudou total e radicalmente e nunca mais seremos os mesmos
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A pandemia já se estende há quase um ano. A doença que se propagou pelo mundo inteiro chegou a Portugal faz, na próxima semana, um ano. Quando se registou o primeiro infectado dentro das quatro linhas do nosso rectângulo, pareceu-nos viver quase uma “sede” de que isso acontecesse, uma vez que já quase todo o mundo conhecia a doença e nós ainda não.

Depressa nos apercebemos de que o caso não era motivo de júbilo e que aquela ansiedade jornalística que nos dava matéria de escrita se haveria de tornar no maior pesadelo que revelaria a nossa impotência a todos os níveis.

O primeiro confinamento foi exemplo para toda a Europa, mas ninguém previa que a terceira vaga nos deixaria numa situação tão frágil e com consequências tão nefastas como aquelas a que temos vindo a assistir nos últimos tempos.

A vida parece ter ficado em “standby”. Tudo adiado, muitos eventos cancelados sem outra data prevista, vários ritmos que se alteraram e se configuram agora às exigências do tempo presente e a sensação de que estamos num “intervalo” continua a povoar a mente de muitos de nós.

Noção errada esta, porque a vida continua a acontecer e a adaptação aos novos tempos tem vindo a ser resiliente, ainda que forçada, e demonstra bem que ainda não conseguimos lidar com toda a situação provocada pelo sars-cov-2.

Começamos agora a ouvir falar em desconfinamento. Renovam-se as esperanças de que o sol da Primavera poderá dar luz a todas as trevas que vivemos desde o dia 15 de Janeiro, mas com muito mais reservas do que quando em Maio se vislumbrava o fim de um primeiro período de interregno nas nossas vidas.

No entretanto, surgiu toda uma nova forma de estar, seja ao nível familiar ou profissional, das relações interpessoais ou das condições básicas da dignidade humana. Mas, ainda assim, parece-nos que tudo isto será um passado ao qual não voltaremos, um pesadelo do qual havemos de acordar.

Uma nova linguagem se introduziu em termos como “delay”, “streaming”, eventos on-line, “lives”, saudades disfarçadas por vídeo- chamadas e tantas outras alternativas que criaram condições a que o trabalho ou a aprendizagem se fizessem por meio de plataformas digitais. Das quais resulta já um grande cansaço e algum desespero, até.

E muitos, desde os líderes políticos aos que orientam as comunidades nos seus diferentes âmbitos, pensam que depois de tudo isto voltaremos ainda com mais ânimo e mais força e ninguém se recordará com saudade do novo coronavírus.

Creio que não é assim. Não nos podemos convencer de que estamos numa pausa forçada. A vida mudou total e radicalmente e nunca mais seremos os mesmos. Não estamos a viver um intervalo, nem um processo de standby, mas sim a experimentar o resultado da nossa impotência e da fragilidade de todo o nosso progresso, seja científico ou tecnológico, industrial e, na pior das suas variantes, um progresso ou retrocesso social.

As relações sociais e interpessoais são aquelas que manifestarão as marcas que o sars-cov 2 nos vai deixar com maior agressividade. Não estamos parados. As folhas do calendário continuam a cair ao ritmo dos ponteiros de um relógio que não para.

E é por isso que a nossa responsabilidade individual e pessoal tem de ser o melhor remédio para este nosso tempo.

Não nos basta justificarmos com a tal “fadiga pandémica” que nos faz “meter uns dias de baixa”. É urgente assumir que tudo está diferente e que durante este ano não ficou tudo bem, mas cabe-nos a cada um fazer desta crise uma oportunidade para que o mundo avance por outros caminhos que ainda desconhece, mas que nos dá provas mais do que suficientes de que “estamos todos no mesmo barco”.

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