Super bactérias: a próxima pandemia

A OMS já estimou para 2050, se não forem tomadas medidas, as super bactérias resistentes podem provocar para cima de 10 milhões de mortes
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António Pinto Pires

Há cerca de 4 anos, a Assembleia Geral das Nações Unidas assinou uma declaração para coordenar e vincular os estados membros face a uma ameaça sanitária de grandes dimensões. Até à primeira metade do século XX, a principal causa de morte no mundo eram as infeções por vírus ou bactérias.

As vacinas ajudaram sobretudo no campo das infeções e os antibióticos contribuíram para reduzir drasticamente a letalidade provocadas pelas bactérias. Alexandre Fleming, um dos criadores de medicamentos, advertiu desde o início quando se começou a utilizar a penicilina para o combate das bactérias, que as mesmas encetariam um processo de adaptação e sobrevivência. Hoje, a resistência aos antibióticos é uma ameaça em crescendo, como reconhecem os especialistas que para tal têm vindo a alertar.

Está estimado, por ano morrem 700 mil pessoas devido a infeções causadas por bactérias resistentes aos medicamentos disponíveis no mercado, uma tendência em crescimento, inclusivamente nos hospitais onde esse fenómeno era raro, e se tornou cada vez mais numa ameaça.

O mau uso destes medicamentos no seio das populações, nos hospitais e mesmo com os animais, constitui a principal causa para que os micro organismos os tolerem melhor. Quando se termina um tratamento antes do tempo ou se toma um antibiótico quando não é necessário, a bactéria sobrevive depois de ter tido contacto com o fármaco saindo reforçado em ocasiões posteriores como se tivesse recebido um treino.

Por outro lado, a globalização está a facilitar a expansão das resistências produzidas entre as próprias bactérias. Este fenómeno não tem sido ignorado por especialistas, e tendo em conta o impacto ocasionado na saúde global no surgimento de resistências, a dispersão de uma bactéria, sendo multirresistente é possível que tornem este processo de mutação em algo mais lento.

Acordos como o tomado pela ONU e países para combater as bactérias super resistentes mostra a existência um consenso internacional face à existência do problema e sua importância, mas a complexidade de algumas medidas aliada ao aparecimento do covid 19 refrearam as pesquisas em curso. Mesmo assim, e face à constatação deste problema, do uso excessivo de antibióticos, continua a assistir-se a uma inadequada proposta medicamentosa sem possibilidade de aplicabilidade. O mesmo ocorrendo com a aplicabilidade dos medicamentos anti tumorais. As atuações no âmbito do covid têm alertado para a compatibilidade entre o uso de medicamentos para os diversos fins. É muitas vezes a questão da rentabilidade, menosprezando as consequências, a aí entram os lobbies…

Isto porque nos finais do século XX desenvolveram-se para cima de 20 novos antibióticos, seguindo-se um refreamento, por vezes drástico pelo fato de os mesmos serem pouco rentáveis. E a comparação faz-se com os fármacos oncológicos ou as estatinas que conhecem períodos prolongados de consumo, muitos deles para o resto da vida, ao passo que os antibióticos têm um espectro mais curto de utilização! Chegando-se ao ponto de muitos deles serem retirados dos mercados pela fraca rentabilidade económica, independentemente do sucesso obtido. Esta questão, tem-se tornado num quebra cabeças para muitos países que procuram encontrar formas de financiamento para que esses medicamentos não saiam do mercado.

Muito recentemente diversas companhias biotecnológicas e farmacêuticas de renome mundial procuram encontrar uma forma de desenvolver entre dois ou quatro antibióticos inovadores que possam persistir na década que se aproxima, se tivermos em conta o estigma do SARS-CoV-2, e o devido impacto como já referi.

A par de toda esta panóplia, entenda-se a instabilidade que paira sobre a humanidade, desta vez de âmbito planetário, a OMS, Organização Mundial de Saúde, já estimou para 2050, que se não forem tomadas medidas, as super bactérias resistentes podem provocar para cima de 10 milhões de mortes, ultrapassando as mortes provocadas por cancro, e tornando-se desta feita na principal causa de morte da humanidade.

Como vamos lidar com esta situação tendo em conta a sua mitigação, termo tão em voga? Se os métodos convencionais começam a falhar, há que procurar alternativas que podem passar por complementos aos antibióticos, a título de exemplo os tratamentos com bacteriófagos geneticamente modificados, que a ser aplicados de forma controlada podem resolver dolências face às quais os antibióticos se mostram impotentes.

Importa reter que a globalização está a facilitar a expansão das resistências. Que surpresas nos reserva o século XXI? Para já, não arrisco prognósticos, não obstante as minhas convicções.

Permita-se-me o desabafo, tenho saudades da minha meninice despreocupada e livre, qual mente sonhadora que me tem acompanhado, embora cada vez mais apreensivo.

Como refere Gonçalo Cadilhe, um andarilho quanto eu: “A minha viagem está a terminar, mas é só a estrada que chega ao fim; o viajante continua, não se detém. Mantenho o processo de metamorfose ao contrário. Como alguém terá dito há muitos séculos atrás, sigo caminho para me aproximar da minha essência.”

Como diria o nosso Solnado, “…façam favor de ser felizes.” Enquanto há tempo, acrescento.

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