Unidos na tragédia

Quando as comunidades se unem nos momentos difíceis
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1784

Carlos Madaleno

Corria a vida com dificuldade na Primavera de 1817.Na Covilhã, o desemprego aumentava dia para dia. Os antigos operários engrossavam agora o número dos que mendigavam uma côdea de pão para os filhos. A situação em que nos deixaram as invasões francesas, a sua política de terra queimada e os efeitos perniciosos do tratado assinado com Inglaterra em 1810, bem como a ida da Corte para o Brasil tinham semeado a miséria de norte a sul. Na Vila da Covilhã subsistiam apenas algumas fábricas melhor equipadas, como a dos Quintais, gerida por Leonor Pessoa de Amorim ou as de Simão Pereira da Silva onde se introduzira, havia 2 anos, as primeiras rodas hidráulicas de cubos.

Era cruel a realidade. Para os mais carenciados a morte de uma pessoa abastada era motivo de uma ténue e efémera esperança. Sabiam que após o funeral, as famílias repartiam uma esmola entre os que mais necessitavam e quaisquer dez réis faziam de novo brilhar os olhos de uma mãe que assistia ao choro do filho esfomeado. A 15 de maio, desse ano de 1817, morria Luís Gregório Tavares Costa Lobo, neto do Capitão-mor da Covilhã, Gregório T. Costa Lobo. A família era então das mais ricas e poderosas da região. O funeral realizou-se no dia 16 pelas 17h, mas os ofícios fúnebres apenas terminaram pelas 11 da manhã do dia 17. A essa hora juntava-se já à porta do principal herdeiro, António José Tavares, uma multidão de pobres que de acordo com o “Jornal de Coimbra” dessa data, se aproximava do meio milhar. Eram então convidados a subir para o salão onde se repartia a esmola. Até chegarem à divisão onde existia um enorme arcaz e três bancos corridos, acotovelavam-se, empurravam-se, atropelavam-se. A ampla sala era diminuta para tão grande multidão. A maior parte ficou à porta e preencheu toda a escadaria. O burburinho que se gerava foi inesperadamente interrompido por um grande estrondo. Ao momento de silêncio inicial seguiam-se os gritos e o pânico. A trave mestra que sustentava a sala quebrara e os que estavam na sala caíram uns sobre os outros para o piso térreo onde existia um tanque. Muitos ficaram aprisionados pelo pesado mobiliário, solho e vigamento. Outros ao tentarem a fuga tropeçavam e eram espezinhados pela multidão. Felizmente ninguém caiu dentro do tanque à exceção de uma criança de cinco anos que por milagre ficou em cima de uma das bicas de água. Os gritos foram ecoando pela vila e por todas as ruelas correm almas assustadas que se inteiram do sucedido, muitas vezes com os pormenores do exagero que caraterizam estas situações. Pais e mães corriam em direção ao acidente, com o coração mais esfarrapado que as roupas que envergavam, ao imaginar os seus rebentos já mortos.

Mas é nestas manifestações de tragédia que muitas vezes as comunidades se superam a si próprias, unindo esforços e realizando milagres. O Juiz de Fora, António da Costa Pereira do Lago, o Provedor da Comarca e o coronel Caetano Abreu e Costa, de imediato coordenaram e envolveram-se pessoalmente na operação de socorro. A eles se associaram outros cidadãos conhecidos, como Vicente Cardona, Francisco Bernardo, José António Casado entre muitos outros. O primeiro grupo de 26 feridos é levado em paviolas e cadeiras para o hospital da Misericórdia contíguo à igreja. São recebidos pelo provedor que era também médico, Joaquim Barata de Oliveira Matos e Sousa. Este último havia já organizado o hospital repartindo médicos, cirurgiões e sangradores por diferentes divisões. Não estava o cirurgião do Partido (cirurgião público do Município) Manuel Rodrigues da Conceição, que se encontrava em Tinalhas, mas assim que é avisado regressa à Covilhã fazendo a viagem num tempo record de 5 horas. Entretanto foi substituído por António de Neves Carneiro, médico partidista do Fundão e pelos cirurgiões Jose Pinto Serra e Manuel Mascaranhas. Também o material médico era escasso e depressa faltaram as talas, mas sabendo disto António de Morais oferece um grande número delas que anteriormente adquirira por serem de bom preço e presta cuidados aos enfermos, José Bernardino da Costa realiza gratuitamente sangrias. O “Corpo do Comercio” providenciou grande número de camas, pois as do hospital nem de perto, nem de longe satisfaziam o número de feridos. Por iniciativa, das autoridades locais abriu-se uma subscrição pecuniária, criou-se com os donativos um depósito de medicamentos a que se acedia através de bilhetes da Junta de Socorro, acontecendo o mesmo para acesso a uma esmola em dinheiro.

De todo o concelho surgem donativos, cada um dava o que podia. O padre de Peraboa enviou “1 carga de bom vinho, 1 almude de aguardente, 1 panela de mel, 1 carga de milho, 1 cesto de ovos e algum pano de linho usado”.

Quanto ao balanço das vítimas, diz-nos o “Jornal de Coimbra”, “morreram pessoas de diversas idades e sexo em razão da ruptura de vasos internos ou de compressão das vísceras. Houve 4 fracturas do fémur, 2 da tíbia e peruneo, 4 do cúbito e rádio, 2 da clavícula (…) contavam-se 10 pessoas gravemente feridas, 88 com ferimentos leves e 57 contusões”.

Mas da tragédia resultou igualmente a prova de uma comunidade que nos momentos difíceis se sabe unir para servir aqueles que mais necessitam.

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