Vinte e dois anos depois

Mais do que os hábitos sociais ou culturais, aquilo que parece estar a preocupar a nossa década é a mutação dos valores
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A idade dos 22 anos é hoje uma referência para a realização e formação da identidade pessoal. Um jovem, por esta idade, se for assíduo ao seu caminho de formação, já pode estar licenciado, já passou as crises da puberdade ou já se insere de algum modo no mundo do trabalho e do ritmo social dos adultos.

Depois da entrada no novo milénio, também já contamos nós 22 anos, em breves dias. Mas na revista de tudo o que fomos vivendo e percorrendo até aqui, apesar das muitas crises que se iniciaram em 2008, tem sido nesta segunda década o grande drama da nossa existência.

E se hoje se “cresce” muito mais tarde, a verdade é que esta nossa década tem-nos feito crescer à pressa e sem grandes tempos para pensar na forma como vamos evoluindo. Desde o início da pandemia que caracteriza a nossa era, têm sido muitos os avanços e recuos, rápidos e às vezes impensados que nos deixam numa instabilidade mais semelhante à nossa “puberdade”, do que ao tal estabelecimento de vida.

Desde a crise económica, onde tantos sectores se têm visto a alterar, fechar e perder muito da sua actividade, até ao mundo do social e do consecutivo adiamento de actividades que enobrecem e fazem crescer o espírito, ao ano lectivo impactado pelo método das aulas por via digital e tantas outras novidades que custam a entranhar, mesmo que estejam para durar.

Mas talvez, mais do que os hábitos sociais ou culturais, aquilo que parece estar a preocupar a nossa década é a mutação dos valores que parecem estar a inverter-se numa decadente espiral que nos está a colocar num ponto de autorreferencialidade desmesurada e egocêntrica.

Não é exagerado afirmar que assistimos a um tempo de auto-referenciação exagerada. Não apenas pelo consumo de informação automática e digital, que nos prende a ecrãs durante horas e horas, mas sobretudo pela indiferença e uma certa “fuga” ao compromisso comunitário. Para além disso, o sentido de sacrifício e a incapacidade de aceitação do sofrimento estão cada vez mais entre as características dos nossos vinte e dois anos depois dessa viragem milenar.

E o cenário que nos envolve, tantas vezes disfarçado por falsas esperanças, precisa de uma renovação mais do que pragmática e rápida.

As condições de acesso a bens e serviços, a preocupação pela dignidade de famílias e de cada pessoa, a reestruturação dos apoios e incentivos já prometidos, não podem funcionar como a mesada que se recebe até aos vinte e poucos… A interioridade que tanto nos marca nas dificuldades e nos dados de uns censos de 2021, reveladores de grandes perdas e de um envelhecimento bastante activo, entra neste 2022 com esta certeza do decréscimo da população, mas com a necessária força para enfrentar as dificuldades desta nossa juventude milenar.

O ano que termina não foi, deveras fácil para ninguém, mas a mudança de calendário poderá proporcionar-nos coisas verdadeiramente belas e grandiosas. E isso acontecerá quando nos apercebermos que a fragilidade comum não é uma questão de juventude, mas sim da falta de fraternidade que deixou de ser preocupação para passar a ser peso.

Como escreveu Francisco, na sua encíclia “Fratelli Tutti”, é certo que “existe uma falsa abertura ao universal, que deriva da superficialidade vazia de quem não é capaz de compreender até ao fundo a sua pátria, ou de quem lida com um ressentimento não resolvido face ao seu povo. Em todo o caso, «é preciso alargar sempre o olhar para reconhecer um bem maior que trará benefícios a todos nós. Mas há que o fazer sem se evadir nem se desenraizar. É necessário mergulhar as raízes na terra fértil e na história do próprio lugar, que é um dom de Deus. Trabalha-se no pequeno, no que está próximo, mas com uma perspetiva mais ampla. (…) Não é a esfera global que aniquila, nem a parte isolada que esteriliza».

Vamos em busca desta nossa juventude milenar! Que seja um ano de renovação para todos!

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