Voluntárias da região costuram material para os hospitais

A primeira mineira do país, natural da Barroca Grande, modelista de profissão, tem estado a coordenar um grupo de mais de meia centena de pessoas que, gratuitamente, tem feito “burcas” e perneiras entregues na Beira Interior
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Foi a primeira mineira “do país e da Europa”, quando entrou nas entranhas das Minas da Panasqueira com a missão de provar que as mulheres também podiam fazer esse trabalho. Por estes dias, Lucinda Batista, 46 anos, modelista de profissão, integra uma rede nacional de costureiras, na Beira Interior, com mais de 50 voluntárias, que se têm dedicado a fazer perneiras e cógulas (uma espécie de burca, que isola a cabeça e o pescoço), materiais destinados a profissionais de saúde.

O movimento tem vindo a crescer e, desde esta semana, juntaram-se grupos da Covilhã, Fundão e Guarda aos que já funcionavam no Sabugal, Gouveia, Seia, Fornos de Algodres ou Figueira de Castelo Rodrigo.

Lucinda Batista, natural da Barroca Grande e a residir desde 2011 no Sabugal, onde trabalhou numa confecção e agora tem um atelier em nome próprio, deparou-se com a falta de movimento na sua actividade, ao mesmo tempo que viu o apelo de uma médica do Hospital Curry Cabral a pedir equipamento individual de protecção para profissionais de saúde, numa altura em que os serviços estão sobre pressão e o material não é demais.

“Tenho uma filha enfermeira, tenho um filho em Medicina e isso mexeu muito comigo, ver as pessoas a precisarem de material. Se há muita gente com máquina de costura e neste momento está tanta gente em casa, não custa nada se todos ajudarmos”, enfatiza Lucinda Batista, que se disponibilizou e mobilizou muitas outras pessoas.

Preço do TNT disparou

Está há três semanas a costurar cógulas e perneiras, muitas já entregues a bombeiros e às Unidade Locais de Saúde da Guarda, de Castelo Branco e ao Centro Hospitalar Universitário da Cova da Beira (CHUCB). Na última segunda-feira, 6, no Hospital da Covilhã, foram entregues 400 “burcas” e 55 pares de perneiras.

Para começar, adiantou mil euros para materiais, a que se juntaram os contributos de várias entidades e particulares. A antiga mineira tem dois fornecedores certos, a quem compra cada rolo de Tecido Não Tecido (TNT) com gramagem superior a 70gr a 170 euros, mas tem conhecimento de empresas que aumentaram os preços exponencialmente, o que dificulta a tarefa.

“Comecei a comprar o material a 170 euros o rolo. Neste momento está mais caro. Uma coisa vendida no mercado a 68 cêntimos o metro está a 3,95 euros, o que significa que um rolo que custava 170 euros, neste momento está a cerca de mil”, censura a modelista, indignada com o aproveitamento da situação, quando tanta gente está a costurar gratuitamente para ajudar.

É sob a orientação de duas médicas que seguem os procedimentos de segurança e têm a estrutura de distribuição e recolha montada. No atelier do Sabugal, onde o material é higienizado duas vezes com produtos oferecidos por uma funerária, só entram três pessoas. As máquinas de costura e tesoura automática são constantemente desinfectadas e as costureiras utilizam máscara.

Hospital agradece gestos solidários

Lucinda Batista é apenas o rosto de dezenas de voluntários do projecto, que foi ganhando escala. Foram feitas entregas em unidades hospitalares na semana passada e também esta semana, mas a ideia é continuar e a modelista pede a quem puder que contribua com doações para a aquisição do TNT de polipropileno, através do IBAN PT50 0035 2130 0000 7060 1003 0, da Caixa Geral de Depósitos.

A voluntária sublinha que o equipamento é descartável, “pelo que será necessário um grande número, para satisfazer as necessidades”.

No dia em que recebeu o material costurado por mais de meia centena de voluntárias, João Casteleiro, presidente do Conselho de Administração do CHUCB, reiterou o agradecimento a todos os particulares e empresas que, de várias formas, têm sido solidários.

“Em situações de aflição as pessoas abdicam muitas vezes do seu próprio trabalho e dos seus assuntos para fazer entregas às pessoas que tratam dos doentes e aos próprios doentes”, realça o médico. “É material útil e é muito importante, porque os próprios fornecedores nacionais e internacionais não têm equipamentos, é difícil adquirir esses equipamentos e são muitas vezes pequenas empresas e iniciativas que, com o sacrifício dos seus trabalhadores ou do seu próprio interesse, constroem, fabricam e adaptam-se a fazer coisas que antes não faziam”, acrescenta o responsável do Centro Hospitalar.

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