Wendel: o goleador do desportivismo

O ponta-de-lança do Sporting da Covilhã podia ter-se isolado e tentado marcar um golo decisivo, mas chutou a bola para fora ao ver lesionado o adversário que perdeu o esférico
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Wendel quer sempre ganhar, mas com a sensação de quem conquistou e de no final poder encarar o adversário com a cabeça erguida. Foi assim que agiu no último domingo, 16. O avançado do Sporting da Covilhã podia isolar-se e tentar marcar o golo que podia garantir a manutenção na II Liga de futebol, só que decidiu atirar a bola para fora quando percebeu a lesão de Valente.

No final, a vitória foi conseguida pelos serranos, e embora ao minuto 28 a partida com o campeão Estoril estivesse ainda empatada e os “leões da serra” ainda não tivessem assegurado a 14.ª época seguida no segundo escalão do futebol nacional, a matemática não fez o atacante brasileiro pensar duas vezes na atitude a tomar.

O carioca de 20 anos, cedido no mercado de Inverno pelo Leixões, almeja a glória, sem que no caminho tenha de pisar ninguém para a alcançar.

O central Marcos Valente lesionou-se sozinho no seu meio-campo e ainda tentou chegar à bola, que sobrou para Wendel, mas caiu no relvado, lesionado. O atacante serrano perdeu a oportunidade de ficar isolado e de fazer o golo da vitória, atirando a bola para fora das quatro linhas, num gesto de desportivismo, para que o adversário fosse de imediato assistido.

Já sem Valente em campo, que sairia a queixar-se de dores no joelho, os “leões da serra” acabariam por voltar a estar em desvantagem e conseguiram a reviravolta (3-2), que garantiria a permanência no segundo escalão do futebol nacional, sem terem de se aproveitar do infortúnio do defesa estorilista.

“Há coisas mais importantes na vida”

O jogador, formado no Flamengo, acentua não ter vivido qualquer dilema, perante a possibilidade de um colega, com quem nunca tinha falado até minutos antes da partida, estar magoado. “Era uma grande oportunidade para marcar, mas há coisas mais importantes na vida. Nós somos adversários, não inimigos, e senti que podia ser sério, que um companheiro de trabalho se machucou. O mais importante foi jogar a bola para fora e ver se ele estava bem”, contou o ponta-de-lança brasileiro, em declarações ao NC.

O golo podia valer a manutenção, mas o pensamento mais imediato de Wendel foi “parar na hora” e fazer o que achou correto. No final, sentiu a vitória amplificada, por ter sido conseguida sem atropelos ao desportivismo.  “O resultado viria conforme a gente jogasse, e não [estava] dependente de uma falha de um companheiro que se machucou. Fico muito feliz pelo resultado e por não ter sido conseguido num lance de adversidade de um colega”, acrescentou o avançado, de sorriso hesitante, pose tímida e a certeza de que é infinitamente mais o que se ganha do que o que se perde quando se respeita o adversário.

A decisão de Wendel foi aplaudida por ambos os treinadores no final da partida.

“Vitórias não devem ser a qualquer custo”

“O Sporting da Covilhã, mesmo com este gesto, acaba por ganhar o jogo e demonstra que não é por não se tirar proveito de uma infelicidade que se ganha ou se perde um jogo”, disse Bruno Pinheiro, o treinador do Estoril Praia. Para o técnico ´canarinho`, que enalteceu a guarda de honra feita à sua equipa no início da partida, comportamentos como o de Wendel “devem ser incentivados” pelos treinadores.  “Todos nós queremos ganhar, mas as vitórias não devem ser a qualquer custo”, realçou o timoneiro do campeão da II Liga de futebol, para quem “não é necessário recorrer a truques e artimanhas para se ganharem jogos”.

Apesar dos nervos no relvado até ao apito final, José Bizarro, treinador serrano, afirmou ter assistido “com muito agrado” à decisão de Wendel da Silva Costa e manifestou a intenção de lhe dar “os parabéns, porque ele foi um grande homem”.  “Nós vemos nos jornais e na televisão muitas desgraças e o mal do futebol, mas o futebol também tem coisas muito bonitas. Hoje, o Wendel provou isso. A gente estava a jogar a vida e, num lance de que podíamos ter tirado partido, deitou a bola fora”, elogiou o técnico dos “leões da serra”.

Wendel não se demora em análises sobre o porquê de estes gestos não serem mais frequentes no futebol profissional, preferindo destacar que vários jogadores se aproximaram para lhe darem um sinal de que fez “o que está certo” e mostra-se convicto que mesmo quando muito está em jogo e as emoções são fortes, é sempre digno tratar com elevação quem está ao lado, tenha ou não uma camisola da mesma cor.