João Próspero dos Santos*
A Covilhã sempre soube vender ao mundo. Os lanifícios vestem exércitos e casas de moda de meia Europa, a fruta transformada do Tortosendo segue para França, e a Universidade da Beira Interior forma engenheiros e investigadores que a região tantas vezes vê partir. A Covilhã tem, com razão, ambição de ter a sua própria área empresarial — e quer, legitimamente, que o crescimento da região não se concentre num só lugar. Este artigo é sobre um projeto desenhado exatamente com esse propósito.
O que é o Atlântico, Centro-Ibérico Gateway
É uma rede logística, industrial e energética ao longo da Linha da Beira Baixa — reaberta a 20 de setembro — que junta a carga das empresas de vários concelhos em comboios completos para Sines, para os portos atlânticos e para a Europa. Cada nó tem a sua função: Vila Velha de Ródão forma os comboios, Alcains recebe a carga espanhola, o Fundão consolida o norte, e Covilhã/Tortosendo é o maior gerador de exportação de toda a rede.
Segundo as estimativas do estudo, Covilhã e Tortosendo representam cerca de 24% da exportação regional da rede — a maior quota de todos os nós. O cluster têxtil exporta mais de 100 milhões de euros por ano: Paulo de Oliveira, Fitecom, Penteadora, Tessimax, Benoli e tantas outras. A Frulact, no Tortosendo, tem uma capacidade inicial da ordem das 30.000 toneladas por ano, sobretudo para França. E o Parque Industrial do Tortosendo reúne mais de sessenta empresas em cerca de 81 hectares.
A ideia de um terminal de mercadorias no Tortosendo existe há anos, mas não consta do Plano Ferroviário Nacional. É uma aspiração, não um projeto. O que o transforma em projeto é a prova de procura: carga real, empresas comprometidas, comboios a passar. É isso que a rede oferece à Covilhã. O estudo aponta o Tortosendo como o melhor local para o terminal da Cova da Beira — terrenos planos, junto ao parque industrial, sem camiões pesados na malha urbana — com uma capacidade estimada de 10.000 a 20.000 TEU por ano. Sozinha, a Covilhã tem uma reivindicação. Em rede, tem um argumento.
O que muda com um armazém alfandegado à porta. Hoje, um contentor que sai do interior para fora da Europa faz o despacho e espera no porto. Com um depósito temporário alfandegado e um porto seco em rede, o despacho faz-se aqui: o contentor é verificado e selado junto de quem produz, segue sob controlo aduaneiro diretamente para o navio e não pára no cais. Na importação, a mercadoria chega ao interior ainda sob controlo aduaneiro e os direitos e o IVA só se pagam quando é libertada — o que alivia a tesouraria. Menos dias, menos taxas portuárias, e trabalho qualificado para despachantes e operadores locais. Para o têxtil, que vive de prazos de entrega curtos e de clientes exigentes, ganhar dias é ganhar encomendas.
Castelo Branco não pode ser o aspirador
A Feiteira, em Castelo Branco, será o coração desta rede: o terminal intermodal, o porto seco, o aeródromo e a grande área empresarial. É uma peça básica — nenhum outro ponto da região reúne quinhentos hectares, ferrovia, autoestrada, aeródromo e energia — e a região precisa que ela avance. Mas é precisamente por ser tão importante que Castelo Branco não pode ser o aspirador da região. Os investimentos que ali se fizerem — terminal, porto seco, alfândega, água industrial, energia e a própria Grande Área Empresarial — têm de ser pensados como infraestruturas da região e não como património exclusivo de um município: com gestão partilhada entre os municípios e as Comunidades Intermunicipais, regras de acesso iguais para todos e ao serviço tanto das empresas da Covilhã e do Tortosendo como das de Castelo Branco. Uma Feiteira aberta à região fortalece a Covilhã; uma Feiteira fechada sobre si mesma não serviria ninguém, nem a própria Castelo Branco.
Numa rede assim, cada empresa carrega e despacha onde está. A Covilhã partilha com o Fundão e Belmonte uma posição única: está entre a Guarda, porta para a Europa, e Castelo Branco, porta atlântica e da Extremadura, e pode, e deve, beneficiar das duas. E a própria medida do Governo que cria as Grandes Áreas Empresariais prevê uma rede municipal e intermunicipal de zonas de acolhimento empresarial: a ambição da Covilhã cabe nela.
Proponho à Covilhã que assuma o lugar que os seus números lhe dão: o de maior exportador da rede, com voz própria no seu desenho. Que a Câmara, a Associação Empresarial e a UBI se sentem à mesa com os outros concelhos, que os exportadores digam que carga têm e para onde, e que o terminal do Tortosendo passe de aspiração a prioridade. A Covilhã já exporta para o mundo. Merece uma porta própria para o fazer. É agora.
*Médico cirurgião reformado, ex-diretor clínico do Hospital Amato Lusitano; membro fundador (2009) do Núcleo da Beira Baixa da SEDES – Associação para o Desenvolvimento Económico e Social